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terça-feira, abril 20, 2010

Doutoras de aluguel

O assunto é tão sério que entidades envolvidas com saúde chegaram a fazer um levantamento para ter noção do problema. Os números são preocupantes: 80 milhões de brasileiros se automedicam e cerca de 65% do volume total dos remédios vendidos no país é comprado sem receita. Sessenta e cinco por cento das pessoas colocam a saúde em risco espontaneamente! Que medo.

E não pense você que os únicos vilões dessa história são os remédios com tarja preta, como os ansiolíticos, anorexígenos, antidepressivos ou os que exigem a receita azul (aquela que fica retida na farmácia). Os medicamentos de tarja vermelha, como anti-inflamatórios, corticoides e antialérgicos, apesar de necessitarem de receita, são comercializados livremente, como se não apresentassem nenhum risco. Ledo engano.

“Infelizmente, a tarja acaba tendo um caráter meramente informativo e ilustrativo no Brasil”, reforça Elisaldo Carlini, psicofarmacologista, diretor do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas). O que pouca gente sabe é que mesmo os remédios aparentemente inofensivos têm lá suas doses de perigo.

Como não é tão simples assim fazer com que as pessoas se conscientizem dos danos que um simples comprimido pode causar, recentemente foi aprovada uma lei que proíbe as farmácias de vender qualquer tipo de remédio em gôndolas nos corredores. Eles devem ficar atrás do balcão, acessíveis apenas aos funcionários.

Uma medida clara para tentar controlar a compra sem receita ou por impulso. A ideia veio resolver, em parte, uma das deficiências apontadas pelo dr. Wong, de que o Brasil precisa de um sistema rígido de fiscalização e controle de venda de medicamentos, como acontece nos Estados Unidos, no Canadá e na maior parte da Europa.

Nos EUA, aliás, as drogas conhecidas como Rx (os anti-inflamatórios de tarja vermelha daqui, por exemplo) só podem ser comercializadas com prescrição médica, no balcão, por farmacêuticos treinados.

Na Inglaterra, existe uma categoria intermediária, os BTC (behind-the-counter), como antialérgicos com efedrina, e a pílula do dia seguinte, cuja venda está autorizada sem receita mediante entrevista com o farmacêutico, apresentação de documentos e registro de dados.

Além de precisar da indicação médica, nesses países, os remédios são entregues em porções, de acordo com a duração do tratamento: o farmacêutico retira da embalagem original apenas a quantidade prescrita na receita e passa para aqueles frasquinhos tão comuns de ver nos filmes americanos. Isso ajuda a evitar os abusos ou sobras, que poderiam ser usadas por terceiros, além de acabar com o desperdício.

Agora que você já está mais consciente de que usar remédio sem recomendação ou acompanhamento médico pode representar a diferença entre encontrar a cura e agravar o quadro, já sabe: brincar de jaleco branco, só mesmo debaixo dos lençóis.

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