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segunda-feira, abril 12, 2010

Loucuras e maravilhas para Alice

Com bom humor, obra de Lewis Carroll escrita há quase 150 anos aborda violência, insanidade e transtornos psíquicos – e ainda tem gente que pensa que é livro só para crianças

Maria Maura Fadel é psicóloga e psicanalista

Não deve ser por acaso que a nova edição do clássico da literatura infantil Alice no país das maravilhas, publicado pela Cosac Naify em duas versões, na semana de seu lançamento estava exposta, em algumas grandes livrarias (pelo menos de São Paulo), na seção de livros adultos.

Claro, uma história pode ser lida de muitas formas e, com certeza, olhar de maneira aprofundada para o reino criado pelo inglês Lewis Carroll (1832-1898) oferece inúmeras possibilidades de interpretação e reflexão. Também não é à toa que já há muito tempo filósofos, psicólogos e educadores vêm se dedicando a desvendar aspectos da obra. Ao longo de todo o texto é possível encontrar referências simbólicas que remetem ao universo psíquico.

A história, que começa com uma meninha que cai em um buraco, acena para um ritual, para a entrada em uma outra dimensão. O autor busca referências no mundo dos sonhos para deixar vir à tona a insanidade dos personagens.

A todo momento, a protagonista (e também o leitor) se confronta com uma lógica muito particular, como a do inconsciente, na qual a razão é tomada, invadida e superada. Nesse sentido, há um trecho especialmente curioso:

– Mas eu não quero ir para o meio de gente maluca – observou Alice.
– Ah, não adianta nada você querer ou não – disse o Gato. – Nós somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca.
– E como é que você sabe que eu sou louca?
– Bem, deve ser – disse o Gato – ou então você não teria vindo parar aqui.

No mundo povoado por criaturas inusitadas, a gama de esquisitices (e possíveis patologias) é vasta. A Rainha apresenta um quadro de narcisismo exacerbado, ausência de compaixão e de empatia, além de tendência a comportamento violento.

A Lebre e o Chapeleiro, por exemplo, parecem viver um uma loucura compartilhada (folie à deux): têm vínculo emocional forte e comungam crenças delirantes, principalmente em relação ao tempo (ambos crêm que são sempre 6 horas).

A Duquesa é claramente incapaz de acolher um bebê: sacode o descontroladamente e recomenda que as crianças apanhem por espirrar, pois “obviamente” fazem isso para irritar os adultos. O Coelho Branco tem indícios de euforia e transtorno de ansiedade. O Albatroz sofre de narcolepsia. A centopeia é dependente de alucinógenos.

O título inicial dado à aventura inventada por Charles Lutwidge Dogson (verdadeiro nome do autor) – e oferecida de presente de Natal à pequena Alice (essa sim, uma garotinha de verdade) – era “As aventuras de Alice debaixo da terra”.

Ao ser publicado pela primeira vez, em 1865, porém, o texto recebeu o título pelo qual o conhecemos hoje. Dois anos depois, Carroll escreveu Através do espelho e o que Alice encontrou lá, que também faz alusão ao mundo onírico.

A tradução cuidadosa é de Nicolau Sevcenko, professor de história da cultura da Universidade de São Paulo (USP) e de línguas e literaturas românicas da Universidade Harvard.

Sua dedicação ao clássico de Carroll fica visível no posfácio “O País das Maravilhas e o Reino das Marmotas”, em que descreve o contexto da rígida cultura vitoriana: “Alice (...) é uma figura rebelde, que enfrenta, cheia de espanto e indignação, as criaturas presunçosas, mal-humoradas e falastronas do Mundo das Maravilhas. (...) Atrás de cada uma delas está um tipo de instituição vitoriana que Lewis Carroll satiriza e Alice desacata”.

Para ilustrar o livro, o artista plástico Luiz Zerbini, atraído pelo universo de baralhos, inspirou-se na paixão de Lewis Carroll pela fotografia para criar pequenas maquetes com as cartas recortadas (em forma de pop up), como se fossem pequenos cenários.

O resultado são ilustrações teatrais, das quais saltam os personagens. O livro chega às lojas em dois formatos: em papel couché e cantos arredondados (7 mil exemplares); e em papel gardapat, amarelado e de textura macia, em embalagem que simula caixa de baralho, na versão mais sofisticada, “para colecionadores” (3 mil cópias).

Para enfatizar que as leituras e os aprofundamentos com base na história são possíveis (ou quase inevitáveis), no final da edição há indicações de estudos e ensaios sobre a obra, além de biografias do autor, uma seleta relação de artistas que já se aventuraram pelo país encantado de Carroll, links e uma pequena filmografia.

De qualquer forma, seja por interesse profissional, seja por curiosidade ou simples diversão, vale ler (ou reler) o livro. E acompanhar Alice com “olhos de ver maravilhas”.

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