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terça-feira, abril 20, 2010

O médico e o monstro

Se você acha que estamos falando de casos isolados, pare dois segundos e pense em você, na sua família e nos amigos. Vai dizer que nunca ouviu história parecida — ou jamais vivenciou uma?

Uma crise de insônia que aparece do nada acaba sendo creditada ao stress — e não ao comprimido para emagrecer que a amiga “receitou”.

A dificuldade de fazer xixi vira culpa do excesso de trabalho (“Mal tenho tempo de ir ao banheiro...”), e não ao remédio para cólica pego emprestado... Muitas vezes a gente não liga o mal-estar, a irritação ou até uma alergia repentina ao uso indevido da medicação. Deveria...

Eis uma grande cilada da automedicação: ao entrar na farmácia, aceitar a cestinha gentilmente cedida pelo funcionário e começar a passear pelos corredores, ninguém imagina que o analgésico escolhido aleatoriamente pode comprometer a pressão arterial ou que (muito menos!) o antidepressivo buscado para pôr fim ao desânimo da relação amorosa tem chance de minar justamente a vontade de transar. pois é. eu não sei.

Você não sabe. e sua amiga também não vai saber, a não ser que ela seja médica e conheça seu histórico de saúde. que bom se a gente aplicasse a tal filosofia do ado, ado, ado, cada um no seu quadrado.

“O uso de remédios no Brasil é um caos”, desabafa o médico Anthony Wong, diretor do Ceatox (Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

“As pessoas tomam qualquer coisa por conta própria, sem nenhum critério.” O resultado disso é uma inversão total no propósito deles: cuidar da saúde, e não prejudicá-la. Entretanto, ao insistir na automedicação, você não apenas coloca sua vida em risco — 30% das intoxicações por remédio no Brasil são resultantes do uso indevido — como tende a desencadear doenças.

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