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terça-feira, abril 13, 2010

Sem medo do Brasil oficial - Mauro Ventura

Em "colapso", Hamilton Vaz Pereira trata de temas "do primeiro plano" da vida do país

Todo mundo dá palpite sobre temas como futebol e política. Quer dizer, nem todo mundo. Caso Pereira. Fica tímido em mesa de bar quando o assunto é muito popular. Nas peças, também evita falar disso. Até agora.

- Tinha uma certa inibição de tratar do mundo da política, da vida brasileira, tão claramente. Achava que nao tinha nada a acrescentar. Aí pensei: "Não tenho mesmo? Ou será que tenho, através da expressão teatral?".

Acabei perdendo o receio do "quemsou eu para falar desses assuntos de que todo mundo fala?" - diz ele, um dos fundamentos do Asdrúbal Trouxe o Trombone, autor de textos como "aquela coisa toda" e "5x comédia" e diretor de peças como "Deus é química". Com "colapso", eu disse: "ok, vou tratar do Brasil oficial".

A comédia, que estreia em abril no Teatro Poeira, tem como pano de fundo o país. Ela se passa em 2002, às vésperas das eleições presidenciais que levaram Lula ao poder.

São três personagens centenários ou quase - um empresário e negociante de armas, uma embaixatriz e um embaixador. mas parecem ter 60, 70 anos, porque frequentam uma clínica antienvelhecimento.

Como percorreram quase todo o século XX, traçam nos diálogos um panorama do Brasil, de Getúlio Vargas a Brasília, de Sarney a Collor, da ditadura militar a FHC. Mas Hamilton apresenta versões conflitantes para as figuras e os episódios. Ele começou a escrever antes da eleição presidencial de 1989. Acabou engavetando o texto.

- Quando terminei a primeira versão, senti-me mal: "o que eu tenho a ver com isso?". Não reconhecia aqueles personagens e falas como coisas minhas. Era muito diferente do que fazia na época, espetáculos como "nardja zulpério"; "ataliba, a gata safira". Não fiquei confortável.

Entender no palco o que significa ser realmente poderoso

perto das eleições de 2002, ele percebeu que se inventasse outros dois personagens, a trama poderia funcionar. Criou dois jovens, um autor teatral, que se torna biógrafo do empresário e sua namorada, uma modelo que frequenta o universo dos ricos e vira amante da embaixatriz.

- Começei aí a me sentir mais à vontade. Não queria fazer ganhofa, chanchada do mundo dos ricos e, sim entender no palco o que vem a ser se sentir realmente poderoso. Há cinco anos, ele foi convidado a ler um texto. Levou "colapso".

- O público se divertiu, o que me deu força para retormar. Mas havia outros projetos à frente e só agora, em novo ano de eleição, finalizou a obra. Ele chegou a cogitar jogar no lixo o texto, mas pensou: "tem essa frase boa, tem essa cena simpática".

O elenco traz Osmar Prado como Bonaldo Calidh, presidente da Morvhan & Calidh, um dos homens mais poderosos do Brasil, negociante de armas para os iraquianos e destruidor de baleias-azuis. Lena Brito é Tuta Morvhan, senhora da alta sociedade, casada com o embaixador Walace, interpretado por André Mattos. Emanuelle Araújo é Cizâniaa, atriz, modelo e manequim, que namora o dramaturgo Tim Alessandra, vivido por Ricardo Tozzi, biógrafo de Calidh, a quem compara com Napoleão, Walt Disney e Alexandre, o grande.

Com a peça, hamilton está tratando de temas "do primeiro plano da vida brasileira". Algo bem diferente dos primeiros tempos. Minhas dramaturgia começa debaixo da Censura. Em meu primeiro texto, "trate-me leão", procurei assuntos secundários, para os quais as pessoas não davam trela. Em "a farra da terra", observava que o mundo estava mudando. Mas naquela época a ecologia também era um tema secundário. O assunto priotário era derrubar a ditadura. Em "colapso", os temas são de primeira ordem. A nova peça pode sinalizar uma mudança de rota, aos 58 anos.

- Talvez minha dramaturgia agora escolha assuntos mais de interesse político - diz ele, que no dia 03/05 fará em SP a leitura de um novo texto, que fala de temas que estão aí, o novo homem, a nova feminilidade, a mulher pós-moderna.


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