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segunda-feira, junho 14, 2010

Botox altera expressões faciais e influencia sentimentos


Pesquisadores descobrem que pessoas que tiveram a capacidade de franzir o rosto comprometida por injeções de toxina botulímica se consideram, em geral, mais felizes do que eram antes
© Franck Boston/ Shutterstock

Franzimos o rosto quando estamos tristes. Sorrimos porque estamos felizes. Mas pode a relação causa-efeito ocorrer na direção inversa? Ou seja: adotar uma expressão de alegria influenciaria nossos sentimentos a ponto de nos deixar mais contentes?

Estudos recentes em pessoas que receberam injeções de botox sugerem que nossas emoções são reforçadas – e até mesmo dirigidas – por expressões correspondentes.

O naturalista Charles Darwin (1809-1882) foi o primeiro a levantar, em 1872, a ideia de que respostas emocionais influenciam nossos sentimentos.

“A expressão livre de sinais externos de uma emoção é capaz de intensificá-la”, escreveu. O psicólogo francês William James (1898-1944) chegou a afirmar que, se uma pessoa não expressou uma emoção, ela não a sentiu de fato.

Embora atualmente poucos cientistas concordem com essa afirmação, existem evidências de que os sentimentos envolvem mais que o cérebro. O rosto, em particular, parece ter um papel fundamental nesse processo.


Psicólogos da Universidade de Cardiff, no País de Gales, descobriram que pessoas que tiveram a capacidade de franzir o rosto comprometida por injeções cosméticas de botox se consideram, em geral, mais felizes do eram antes.

Os pesquisadores aplicaram um teste de ansiedade e depressão em 25 voluntárias – metade das que haviam recebido injeções de botox, disseram se sentir-se, de forma geral, mais felizes e menos ansiosas. E mais importante: a maioria disse que se sentia mais atraente (embora esse tenha sido o objetivo quando se submeteram ao tratamento estético), o que sugere que os efeitos emocionais não estavam ligados ao reforço psicológico que poderia surgir com um procedimento estético.

“Parece que a forma de sentir não está apenas restrita ao cérebro – existem partes do corpo que podem ajudar e reforçar as emoções”, diz Michael Lewis, um dos autores do estudo. “É como um círculo vicioso.”


Em um experimento realizado na Universidade Técnica de Monique, na Alemanha, cientistas avaliaram pessoas que receberam botox com ressonância magnética funcional enquanto pediam a elas que fizessem cara de irritação. Eles descobriram que os indivíduos com botox tinham muito menos atividade nos circuitos cerebrais envolvidos no processamento e respostas emocionais – a amígdala, o hipotálamo e partes do tronco cerebral – quando comparados com voluntários do grupo de controle que não haviam passado por nenhuma intervenção.

O conceito também funciona de maneira oposta – aumentando as emoções em vez de suprimi-las. De acordo com uma pesquisa publicada no Journal of Pain, pessoas que franzem o rosto durante um procedimento doloroso relatam ter sentido mais dor do que as outras.


Os pesquisadores aplicaram calor ao antebraço de 29 participantes, que deveriam fazer cara triste, neutra ou relaxada durante o procedimento. Os que exibiram expressões negativas relataram ter passado por mais dor do que os outros dois grupos.

Lewis, que não estava envolvido nesse teste diz que planeja estudar o efeito das injeções de botox na percepção da dor. “É possível que as pessoas sintam menos dor, se não podem expressá-la.” Mas todos nós ouvimos dizer que é ruim reprimir os sentimentos – então, o que acontece se alguém intencionalmente suprime as emoções negativas de maneira constante? Um trabalho realizado pela psicóloga Judith Grob, da Universidade de Groningen, na Holanda, sugere que essa negatividade suprimida pode vazar para outra esfera da vida.

Em uma série de estudos realizados para sua tese de pós-doutorado, já submetidos para publicação, ela pediu a participantes que olhassem para imagens repugnantes; um grupo deveria esconder as emoções, outro, segurar uma caneta na boca para evitar franzir o rosto; um terceiro grupo podia reagir como quisesse.


Como esperado, os indivíduos nos dois grupos que não expressaram as emoções disseram, posteriormente, ter sentido menos nojo do que o grupo controle. Em seguida, Grob deu a todos uma série de testes cognitivos, incluindo exercícios para preencher espaços em branco.

Ela descobriu que os participantes que reprimiram as emoções tiveram desempenho pior em testes de memória e de completar palavras – eles completaram, por exemplo, “gr_ss” com “gross” (expressão de nojo em inglês), em vez de “grass” (grama, em inglês).

“As pessoas que tendem a fazer isso regularmente podem começar a ver o mundo de maneira mais negativa”, afirma a psicóloga. “Quando a face não ajuda a expressar uma emoção, esse sentimento busca outros canais para se expressar.”


Ninguém sabe ainda por que nossas expressões faciais influenciam nossas emoções, como parece acontecer. Em nossa mente, associações entre sentimentos e reações podem ser tão fortes que as expressões acabam reforçando nossas emoções – e pode não haver uma razão evolutiva para essa conexão. Ainda assim, nosso rosto parece comunicar nossos estados mentais não apenas para os outros, mas também para nós mesmos. “Eu sorrio, logo devo estar feliz”, diz Grob.

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