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segunda-feira, junho 14, 2010

Da praia para o escritório - Mariana Belmont

Como o jeito informal e caloroso do carioca influencia sua forma de gerenciar pessoas

Diz o senso comum que o carioca é comunicativo e expansivo por excelência. Muito por conta do ambiente quw o cerca: a praia é o palco perfeito para a socialização, livre de preconceitos e hierarquias. Pois esse jeito particular de ser se reflete na maneira como os nativos se relacionam no trabalho, sugere o livro "Jeito carioca na gestão de pessoas", na editora prestígio editorial, do Consultor de RH e gestão empresarial Luiz Moura.

O perfil carioquês de atuar profissionalmente foi traçado através dos depoimentos de 28 pessoas de diferentes áreas, como o cineasta Marcos bernstein, o advogado Ronaldo Veirano, e Alexandre Silva, presidente da General Eletric no Brasil. O viés escolhido por Moura foi mostrar, além da trajetória de carreira dos entrevistados, sua infância e adolescência.

- Esse jeito de ser e de gerir pessoas não tem nada a ver com jeitinho e malandragem, no sentido pejorativo dos termos - diz Moura, preocupado em, logo de saída, deixar claro do que trata sua análise. E o livro não é um ufanismo carioca e não quer dizer que é o jeito ideal de gerir.

Mas que características são essas? Uma delas é viver num processo de comunicação fácil e amplo - em todas áreas e para todos os lados: seja com os superiores, subordinados ou com seus pares. Outra: a propensão de "chegar junto" - na tarefa, no conflito ou na resolução dos problemas. Mais uma: a informalidade do carioca, que, segundo Moura, trata pessoas como pessoas:

- Algo interessante que descobri na pesquisa é que, dos 28 entrevistados, 20 praticam esportes depois do expediente. Ouseja, cuidam da saúde física e mental. O jeito carioca é o jeito de viver no espaço urbano, entre o asfasto e a montanha, e entre o asfalto e a favela. O gosto pela natureza também faz muita diferença. o tapa nas costas que o carioca tem o hábito de dar nos amigos e conhecidos facilita também o relacionamento no trabalho, mas isso não quer dizer que ele tenha uma relação pegajosa. É o lado humano.

Entre os entrevistados, Ana Couto, carioca do Jardim Botânico e dona da agência de branding e design que leva seu nome, com clientes de peso como Proctor&Gamble, Itaú/Unibanco e Coca-Cola. Para ela, o Rio é uma cidade que inspira. Em seu depoimento ao livro, a empresária afirma que "o famoso jeio carioca esbarra em uma amizade inconsequente, porém calorosa; em um jeito levemente desrespeitoso, porém agradável".

Na entrevista ao GLOBO, Ana exalta a facilidade do carioca de se relacionar com os outros e revela que acabou perdendo um pouco de sua espontaneidade ao longo de cinco anos em que trabalhou nos Estados Unidos:

- Um dia telefonei para uma pizzaria e pedi pressa na entrega, porque tinha uma reunião. O funcionário respondeu que havia uma fila e eu teria que esperar. Um colega de trabalho, comentando o caso, me perguntou por que eu me achava tão especial. percebi que eu me julgara o centro de tudo. Que o carioca se sente o centro do mundo. Mas isso é bom na medida em que faz você acreditar, de forma entusiasmada, em seus projetos de maneira geral.

Na opinião de Marlyse Matheus, diretora de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas da empresa de consultoria de recursos humanos Career Center, o jeito de gerir é uma somatória de perspectivas. E o local de onde a pessoa vem é um dos fatores de influência:

- Sempre trabalhei com profissionais de vários lugares, inclusive de outros países. E vejo que, além das características pessoais, de personalidade e estilo, o ambiente onde a pessoa está inserida influencia muito no seu modo de lidar com os outros. O paulista, por exemplo. Ele vem de um ambiente muito urbano, vive na selva de pedra. E isso se reflete numa certa dureza, numa cobrança maior consigo mesmo e com os outros. Ele é mais pragmático que o carioca, que consegue imprimir descontração mesmo para falar de assuntos mais sérios.

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