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quinta-feira, junho 03, 2010

Descomplicando a Matemática

Andréa Antunes

Nesta quinta, 6 de maio, comemora-se o Dia Nacional da Matemática. Instituída em 2004, a data tem como objetivo levar os professores à reflexão para descomplicar a Matemática e mostrar que ela também pode ser divertida.

A escolha da data é uma homenagem ao escritor e professor de Matemática Júlio César de Mello e Souza, que criou uma didática própria para ensinar seus alunos. Mais conhecido pelo pseudônimo de Malba Tahan, Júlio César de Mello mostrou em sua obra "O Homem que Calculava" que a disciplina pode sim ser simples, divertida e também aplicada no nosso dia a dia.

Apesar das lições de Malba Tahan - que na primeira metade do século XX defendia o uso de diferentes linguagens, como jogos, manipulação de objetos e uso de laboratórios para ensinar Matemática - boa parte dos professores ainda mantêm apenas o quadro negro e o giz como ferramentas para ensinar a disciplina e se limitam a passar aos alunos fórmulas e conceitos. Talvez esteja aí o maior entrave para melhorar a qualidade do ensino da disciplina.

"Melhorar a formação matemática em nosso país requer mudanças de concepções de ensino. Defendemos uma formação matemática inovadora, que valorize o desenvolvimento de competências para selecionar e analisar informações, para raciocinar, para resolver problemas, para comunicar-se com outros, para argumentar, entre outras mudanças necessárias.

Uma formação que não valorize apenas armazenamento de informações, a memorização e a repetição de procedimentos técnicos", avalia Paulo Figueiredo Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (Sbem) e professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Ele ressalta, ainda, que a formação neste molde é uma tarefa indispensável e desafiadora que requer, também, uma revisão dos conteúdos ensinados. De acordo com ele, os educadores entendem que as atividades matemáticas fazem parte da vida das pessoas e que todo cidadão precisa adquirir competências matemáticas.

"Eles pregam que a matemática não é um ‘bicho de sete cabeças’ e que está presente no dia a dia das pessoas. Defendem, além disso, que a escola deve encampar essa visão", explica. Para o professor, no Brasil ainda prevalece o ensino que dá mais ênfase à nomenclatura e aos conhecimentos técnicos do que às ideias da Matemática.

O professor acredita que o ensino atual prioriza a memorização de procedimentos em detrimento da capacidade de resolução de problemas com o emprego da Matemática.

"Além disso, há uma grande fragmentação dos conteúdos no ensino da Matemática, que são apresentados, com frequência, em blocos desconexos, o que leva os alunos a estudá-los dessa forma desarticulada e, quase sempre, com o único objetivo de obter uma boa nota na prova", acrescenta.

Paulo Figueiredo defende uma formação mais compatível com as demandas científicas e tecnológicas atuais.

"Um conceito que, atualmente, vem sendo mencionado na comunidade acadêmica é o de letramento. Segundo o Relatório do Programa PISA/2003, o letramento em Matemática é a capacidade individual de identificar e compreender o papel da Matemática no mundo, de fazer julgamentos bem fundamentados e de se envolver com a Matemática de maneira a atender às suas necessidades atuais e futuras como um cidadão construtivo, consciente e reflexivo", disserta.

Dificuldades começam antes da formação dos professores

Com 41 anos de experiência como professor, Helcio Gomes, do Curso Miguel Couto, diz que os desafios começam antes mesmo da formação dos professores.

"A maior parte dos estudantes que ingressam no curso de Matemática não querem ser professores, salvo algumas exceções. Não se veem em sala de aula", diz Helcio Gomes, criticando também os currículos das faculdades que, segundo ele, não privilegiam os assuntos abordados no ensino básico. "Além disso, as cadeiras de didática são poucas, o que gera dificuldade para o recém formado", completa o professor.

"Matemática não é ciência e sim linguagem usada na Biologia, na Física, na Química. Mas para estabelecer essas conexões, para mostrar ao aluno a Matemática presente no nosso dia a dia, o professor deve ter uma ótima base cultural para despertar o lado afetivo do aluno. Essa é outra dificuldade", diz.

Usar a criatividade para superar a didática tradicional é o desafio dos professores para tornar a Matemática mais atraente. "A disciplina é árdua, mas com uma boa formação e vontade é possível despertar a atenção e o interesse do aluno", conclui o professor Helcio Gomes.


Cinco mil instituições participarão da Olimpíada Nacional

Este ano, cerca de 400 mil estudantes de todo o Brasil, do sexto ano do ensino fundamental a universitários, deverão participar da 32º edição da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM). A estimativa é da organização do evento.

De acordo com a assessoria de imprensa da OBM, cerca de cinco mil instituições de ensino confirmaram a inscrição. Agora, cada escola decidirá quantos estudantes irá cadastrar para participar da primeira etapa, cuja prova será no dia 12 de junho, para alunos da educação básica, e no dia 18 de setembro para universitários.

As inscrições foram encerradas no último dia 4 de maio e o número de instituições inscritas superou o do ano passado, que ficou em torno de 4 mil participantes.

A Olimpíada Brasileira de Matemática tem como objetivo melhorar a qualidade do ensino de Matemática e é um projeto conjunto da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e conta com o apoio do CNPq, Instituto do Milênio Avanço Global e Integrado da Matemática Brasileira.

Os vencedores de OBM representam o Brasil na Olimpíada Internacional de Matemática. No ano passado, o Brasil ficou em 16º lugar na competição, que teve 105 participantes.


Notas têm melhorado, de acordo com o MEC

O Ministério da Educação (MEC) deve divulgar, ainda neste primeiro semestre, as médias dos estudantes no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) em 2009. A prova avalia bienalmente estudantes em Língua Portuguesa e Matemática e nas duas últimas avaliações mostrou uma melhora no desempenho dos jovens.

Em Matemática, em 2003, os estudantes da quarta série obtiveram média de 180,65. A nota obtida em 2005 foi 185,66. Em 2007, foi registrada uma média de 193,48. Para o presidente da Sbem, Paulo Figueiredo, a melhoria reflete, ainda que de forma tímida, possíveis efeitos positivos dessas políticas de incentivo à disciplina.

"Houve avanços nas propostas curriculares de Matemática no país. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) – tanto para o Ensino Fundamental como para o Ensino Médio – incorporam concepções atuais e estão em sintonia com propostas curriculares de muitos outros países do mundo. Um grande número de propostas curriculares estaduais ou municipais também contêm avanços", diz Paulo Figueiredo, lembrando, no entanto, que apesar dos méritos é preciso uma revisão em muitas de suas recomendações.

"É preciso um enxugamento que limite o caráter enciclopédico dos conteúdos que são prescritos e que se busquem aqueles que são essenciais em cada campo do saber. Outro sério entrave é que as propostas curriculares ainda não chegam, efetivamente, às salas de aula.

As políticas de formação – inicial e continuada - de professores não têm sido eficazes para modificar as práticas docentes que, em geral, permanecem alheias às inovações curriculares", destaca o dirigente.

Mais crítico, o professor Helcio Gomes não vê motivos para comemorar. De acordo com ele, a melhora na pontuação não significa uma melhora no aprendizado.

"A realidade é que as provas estão mais fáceis. O que mudou foi o instrumento de medição da capacidade dos jovens. Qualquer mudança em educação só surte efeito na geração seguinte. Precisamos de cerca de 25 anos para avaliar os resultados. Não dá para mudar de um ano para o outro", decreta.

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