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segunda-feira, junho 14, 2010

Em busca do LOST perdido - Arnaldo Bloch

Como será a sua vida sem a série que aprisionou o planeta Terra numa ilha na TV?

Assisti a meio episódio de "Lost", há um ano, e, como numa novela, bastou para entender tudo. A surpresa foi que, terminada a série, encontrei, via facebook, nas palavras de um amigo fissurado pelo programa, a expressão do que senti: "Foi uma perda de tempo. Um bando de babacas que não sabem de onde estão e para onde vão".

Refleti: mas não é o que somos? Não é essa, aliás, a síntese do existencialismo, filosofia que difunde a ideia de que estamos aqui por acaso? A questão é saber se isso justifica enrolar o mundo por seis anos! Melhor não seria ler um pouco de Sartre e ir fundo na questão? Em busca de luz, mando um e-mail para Arthur Dapieve: "Como é viver sem Lost? Quem?", responde Dapi, de seu telefone esperto.

Sei que todos os fãs vão discordar, mas isso não é problema: cada um discorda de um jeito, o que me põe numa posição de igualdade frente a quem assistiu! Aqui mesmo, na redação de O GLOBO, cada um diz uma coisa.

Bruna Capurro acha que o xis da questão passa pelo espiritismo: o pessoal cair na ilha é um limbo; depois, o sofrimento todo, um purgatório; e, no final, a luz salva a todos na igreja, como se fosse um "anjo exterminador" ao contrário.

Ufa! A fumaça cinza ficou pra trás, presa na ilha! Tava doida pra ser expelida. "Como um pum?", pergunta um gaiato, enquanto Télio navega navega noutra onda: "Cada um morreu a um tempo e depois se reencontraram todos".

Tom Leão acrescenta: "Casaram com as almas gêmeas". E diz mais: "Tem muito de mitologia judaica na parada, com um toque cristão pra agradar os americanos, tipo bezerro de ouro, travessia do deserto e coisa e tal". Tom está trsitão: "Viver sem "Lost" é viver sem a expectativa de cada novo capítulo e de baixá-lo ainda e madrugada para ver no dia seguinte, cedinho. E contar os meses entre os hiatos das temporadas. Só "Lost causava isso...".

A colega Ludmila Curi vitimiza-se, por outra razão: "Nunca vi, mas vivo totalmente lost". Outros, como André Miranda, descobriram que não ver não é motivo para estar desinformando: seguiu tudo pelas redes sociais e pela Wikipedia.

No final, concluiu: "Agora o tráfego no Twitter vai melhorar!", das "piadas de fotomontagem com gente sumida", tipo "Acharam o padre do balão". Você abria a foto e era a ilha de "Lost". Nesta linha, entre os aliviados, não faltam trocadilhos: "Get Lost", dizem uns. "Acabou Bost", atacam os detratores. "Eu não gost", disparam os infames.

Nada que desinflame a onda de comentários que se propaga entre os órfãos. Jefferson Lessa, chateado, diz que o final foi preguiçoso, pois garantiram o tempo todo que aquilo não era um purgatório, "e era, pô!" Era mesmo? Léa Cristina diz que "foi tudo real, e a ilha apenas equilibra o mal e o bem na Terra".

Lívia Brandão, que nunca viu "lost" mais gordo, se diz feliz por ter seus amigos conversando civilizadamente de novo. "Os fãs de "lost" que conheço se tornaram especialmente agressivos na última temporada, que dividiu opiniões. Quem estava achando ruim era "uma besta que não sabe interpretar texto" pra baixo...".

Fiel a seu atual élan de pensador da estética e da comunicação, o jornalista Luciano Trigo faz uma ode à era da informação: "O seriado ultrapassou os limites da TV e se tornou um produto multiplataforma, mostrando o potencial de mobilização do audiovisual no novo contexto de redes sociais e de convergência".

Não deu pra entender se ele assistiu à série ou não, mas o que importa?, se estamos todos perdidos na ilha da aldeia global? Tanto que, do outro lado da aldeia, até o economista e latinista Albert Fishlow, uma das feras da velha guarda da Columbia University, entra na conversa, com e-mail endereçado a "Arnoldo": infelizmente não acomapanhei... talvez na próxima. Mas não haverá próxima, e o poeta Geraldo Carneiro comemora no improviso: "Se vivo até sem o "Paradise Lost", de John Milton, imagine sem "Lost".

Assisti a dois episódios, e, pelo que entendi, não há nada para entender. É o velho truque da história que começa depois do começo e termina antes do fim, celebrizado por Kafta. Last but not least, já vivo lost sem "lost". Mais relax é Adriana Calcanhoto: "Nunca assisti, querido, imagino que se minha vida mudar não terá sido por causa do fim da série..." Perdidão está o DJ Jorge Luiz: "vai fazer uma falta danada! Viver sem Lost é viver perdido... fica um vazio!"

Deste vazio compartilha Mariana Bernardes, do jornal: "ainda não sei o que dizer, sentir... acho que não caiu a ficha", pondera, na retórica dos rompimentos amorosos. Ramona Ordoñez melancoliza, só que mais conformada: "Que jeito? Vida que segue..."

Em pior situação está André Machado, poeta, roqueiro e repórter: "está sendo muito difícil para mim suportar o vácuo deixado por esta obra originalíssima, marco da cultura transmidia. Quero voltar para a ilha urgentemente!"

Precavido, o escritor João Ximenes braga agiu antes de a coisa virar um romance vão: "eu me senti traído com o final da primeira temporada, que termina sem nenhuma resposta, um disparate, e nunca mais vi. A única coisa ruim de viver sem Lost são os fãs chorando as pitangas".

Fonte: oglobo.com.br/cultura

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