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quinta-feira, junho 03, 2010

Famílias ainda pouco presentes na escola

Renato Deccache

Infraestrutura, qualidade dos professores, material didático usado nas aulas, metodologia de ensino, tempo de permanência no ambiente escolar. São vários os fatores que influenciam no aprendizado de um estudante e a maior parte deles depende da própria escola.

O que não significa que os pais não precisem se importar com eles. Até porque o envolvimento das famílias é um dos ingredientes que os especialistas têm ressaltado como mais importantes para a receita do sucesso educacional.

Incentivar esta aproximação tem sido pauta frequente para as instituições de ensino, principalmente as de Educação Básica. A maioria delas já percebeu que não tem condições, sozinhas, de responder a todas as demandas de estudantes com uma diversidade cada vez maior. Mas, se os pais, pela necessidade de trabalhar também para proporcionar melhores condições de educação e cultura aos filhos, têm cada vez menos tempo de acompanhar de perto o ensino que ele recebem, como fechar esta equação?

A resposta pode estar no estudo Interação Escola Família - Subsídios para Práticas Escolares, feito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Divulgada em abril deste ano, a pesquisa mapeou experiências incentivadas pelo Poder Público nesta linha. A boa notícia é que, onde elas ocorreram de forma sistemática, há maior interação entre escola e família. A ruim é que são poucos os casos.

No final de 2008, a Unesco e o MEC, responsáveis pelo estudo, abriram espaço para que governos estaduais e prefeituras relatassem os programas de aproximação de suas escolas com as famílias. Só foram enviadas informações sobre 18 projetos coordenados por secretarias estaduais e 14 promovidos por escolas, sem intervenção dos governos.


"O que se percebe é que, nos últimos anos, tem crescido muito esta aproximação. Mas é preciso tornar mais efetivos os instrumentos que estabelecem e promovem esta relação entre a família e a escola", diz Marilza Regattieri, que, ao lado de Jane Margareth Castro, coordenou o estudo feito pela Unesco.

Escola precisa de rede de proteção social

O trabalho sistematizou experiências de interação entre pais e educadores (veja quadro). As mais comuns, segundo a coordenadora, têm como foco passar informações aos responsáveis sobre o desempenho dos filhos ou o cotidiano escolar, por meio de reuniões e eventos.

Mas há propostas mais complexas, que priorizam um conhecimento maior sobre a individualidade dos estudantes, até para que as escolas não fiquem dependentes só da participação dos pais.

Segundo Marilza Regattieri, estas iniciativas mostram a importância de ações estruturadas, que envolvam outros setores do Poder Público capazes de formar o que chamou de rede de proteção social para melhorar o aprendizado.

"A escola tem suas funções. E ela pode, sim, contribuir muito, mas precisa de apoio. Ela não pode resolver problemas de violência familiar, alcoolismo, desemprego", frisa a especialista.

Ao elencar as principais estratégias de aproximação com as famílias, o objetivo não foi definir quais são as mais eficientes. Até porque, segundo a coordenadora do estudo, a maior participação dos pais depende também dos instrumentos e recursos à disposição dos educadores. Para ela, é importante tanto que os responsáveis saibam o que acontece na escola como, também, que as instituições busquem conhecer melhor seu público.

Em primeiro lugar, para acabar com o "jogo de empurra", onde professores e diretores criticam a ausência das famílias que, por sua vez, cobram maior efetividade dos colégios para lidar com as demandas dos estudantes. E, tão importante quanto, porque esta aproximação contribui para que os alunos aprendam, como já comprovam estudos feitos no Brasil e no exterior.

"Quando as famílias têm mais informações sobre a vida escolar de seus filhos e quando a escola consegue fazer isto de uma forma a ajudá-los a valorizar esta educação, há um apoio que se dá no ambiente extra-escolar e, ao mesmo tempo, incentivos à participação neste ambiente, que são de outra natureza.


Este fator, por si, contribui significativamente no processo de aprendizagem", diz a especialista, lembrando que, independente da forma como a escola incentiva a participação dos pais ou do tempo que eles dispõe, é essencial buscar estar sempre presente.


"É importante existir este clima afetivo, de apoio no processo de aprendizagem e de estímulo. Isto não significa necessariamente saber o conteúdo, mas incentivar, participar, estar perto", conclui Marilza Regattieri.

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