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quinta-feira, junho 03, 2010

Os novos desafios da aprendizagem

Alessandra Moura Bizoni e Renato Deccache

São vários os obstáculos que o professor enfrenta em sua tarefa cotidiana de ensinar. Alguns estão ligados à infraestrutura, como salas de aula com acústica deficiente, uso de giz (que causa alergias) e ausência de recursos tecnológicos. Outros, dizem respeito a questões relacionadas à gestão nas escolas, como falta de equipes de apoio pedagógico, excesso de alunos por turma e ausência de estratégias eficientes para manter a ordem entre os estudantes.

Há desafios que, no entanto, não são percebidos com tanta facilidade. Um aparente desinteresse pelo que é dito pelo professor ou na realização de tarefas simples como ler um texto ou resolver uma conta que envolva operações elementares nem sempre é uma questão de indisciplina.

Por trás de problemas como estes, podem estar distúrbios complexos de natureza médica ou psicológica, que só recentemente começaram a ser investigados com mais profundidade por pesquisadores.

Alguns, como a dislexia (dificuldades com a leitura) ou a discalculia (que prejudica a assimilação de conhecimentos matemáticos), afetam habilidades báscias para o processo de aprendizagem. Outros, como o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), estão relacionados a aspectos neurocomportamentais. Há também casos de estudantes que precisam lidar com problemas relacionados à visão, à audição ou à motricidade.

Em comum a todos, está o fato de exigirem das escolas não só equipes multidisciplinares para dar suporte ao trabalho dos professores, mas, sobretudo, maior flexibilidade dos currículos e métodos pedagógicos, para viabilizar o aprendizado.

Este foi um dos pontos recorrentes analisados por especialistas que participaram de um seminário promovido pelo Sindicato dos Professores do Rio e Região (Sinpro-Rio) sobre o desafio de educar. Na ocasião, os pesquisadores discutiram as melhores formas de educar diferentes sem abrir mão da qualidade e, principalmente, a necessidade de inclusão destes alunos na sociedade.


Dislexia


A dislexia é um transtorno caracterizadopela dificuldade de relacionar sons às respectivas letras. A consequência disto é um desenvolvimento mais lento da habilidade de ler. Como a leitura requer muito esforço, o disléxico tem capacidade de interpretação abaixo da média.

Segundo a doutora em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renata Mousinho, a saída mais adequada para resolver o problema não é isolar o estudante. "Só orientamos a tirar da turma quando, por exemplo, não dá tempo suficiente para fazer uma prova com os demais alunos. Neste caso, a pessoa pode terminar em outro ambiente."

Segundo Renata Mousinho, um dos sinais de que o estudante sofre de dislexia é uma dificuldade de leitura atípica. "Muitas vezes, a criança tem um bom rendimento em outras atividades, exceto as que envolvem leitura." Crianças cujos erros frequentes destoam dos cometidos pelos demais alunos e que aprendem bem oralmente mas têm muita dificuldade em assimilar conteúdos quando leem podem sofrer de dislexia.

Segundo Renata Mousinho, o trabalho com este tipo de aluno requer, muitas vezes, apoio de psicólogos e fonoaudiólogos. Além disto, ela aconselha as escolas a adotarem estratégias como uso de recursos visuais no ensino, tempo maior para provas e atividades e, ocasionalmente, releitura de questões. "Ela é uma criança extremamente inteligente e que pode aprender através de todas as outras vias", destaca a educadora.

Discalculia

Discalculia é um transtorno que se caracteriza por uma dificuldade mais acentuada do que a encontrada na maior parte dos alunos com os cálculos matemáticos. Como afeta a capacidade de calcular, mesmo usando operações mais simples como soma e subtração, ela compromete o desempenho na matéria.

Por ter causas neurológicas, a discalculia não é fruto de falhas no processo de ensino. Até porque, segundo Flavia Heloisa dos Santos, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisadora do tema, um dos aspectos levados em consideração para diagnosticar o distúrbio é se as dificuldades também ocorrem fora do ambiente escolar.

"A criança tem dificuldade em utilizar códigos, identificar o que significa o símbolo da divisão, da soma, etc", explica a pesquisadora. Segundo ela, outros traços do problema são a dificuldade de organizar contas espacialmente e de memorizar informações. "Se, por exemplo, um professor lê um problema, a criança vai pedir para ler novamente, pois não consegue memorizar e organizar os dados para fazer o cálculo."

O aluno com discalculia deve ser encaminhado para uma avaliação a ser feita por um neuropsicólogo e, eventualmente, com a complementação de outros especialistas. Só, então, é possível saber se a dificuldade é mais verbal, espacial, ou de percepção e, a partir daí, adotar práticas de ensino adequadas ao quadro.

Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDHA)

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDHA) não é, em si, um problema cognitivo. A criança não tem problemas nas estruturas cerebrais para assimilação de conteúdos. O que existe é uma dificuldade de guardar o que foi aprendido.

"Se tiverem uma mediação correta, se forem medicados de forma adequada, conseguem aprender. O que vemos na escola é que eles têm dificuldades funcionais", diz a professora Cristina Espanha, que é psicopedagoga clínica e orientadora educacional, acrescentando que as dificuldades mais comuns que eles enfrentam são as comportamentais. "O problema é que eles são mais esquecidos, esquecem o conteúdo. Por isto, têm dificuldades na realização das provas."

São sintomas do TDAH atitudes que denotem desatenção, hiperatividade e impulsividade. Em muitos casos, a pessoa sofre com, pelo menos, dois destes sintomas, o que torna o quadro mais complicado. A predominância da desatenção é o que prejudica mais os resultados escolares.

Para este tipo de estudante, é aconselhável o uso de estratégias que tornem as aulas mais prazerosas e estimulem a atenção dos alunos de forma diversificada, como recursos audiovisuais, computadores e jogos, entre outros. Para Cristina Espanha, também é fundamental o projeto pedagógico ter maior flexibilidade.

Dificuldade motora

Entender melhor para incluir. Essa é a orientação que Miryam Pelosi dá aos professores para lidar com alunos com problemas motores. Segundo a educadora, que é terapeuta ocupacional, psicopedagoga e professora da Faculdade de Medicina da UFRJ, algumas crianças têm dificuldade de andar, de manter a cabeça posicionada adequadamente para a leitura, de falar e até mesmo de usar as mãos para segurar objetos ou escrever.

Nesses casos, ela sugere o uso de materiais alternativos a fim de criar novas possibilidades de comunicação com os estudantes. "Se a criança não fala, podemos usar placas de comunicação, fotografias, símbolos, figuras de revista. O importante é que ela aprenda a fazer escolhas."

Nesse sentido, informa a terapeuta, muitas vezes, crianças com problemas motores, visuais e de fala têm uma capacidade cognitiva normal, precisando, no entanto, de um atendimento especial.

"Elas podem escrever com a ajuda de um mediador e conseguir se alfabetizar. Existem recursos como letras móveis, letras emborrachadas. Até mesmo as máquinas de escrever elétricas podem ser utilizadas por alguns alunos. Devemos optar por materiais resistentes para que o material produzido possa ser utilizado no futuro por outros estudantes.

Além disso, devemos evitar situações de distração", acrescenta Miryam Pelosi, informando, que, no segundo semestre deste ano, a Faculdade de Medicina da UFRJ deve oferecer um curso de extensão para capacitar docentes.

Deficiência visual

Terapeuta ocupacional e psicopedagoga clínica do Instituto Catarata Infantil, Ana Helena Schreiber observa que existem basicamente dois tipos de deficiência visual: a baixa visão (ou visão sub normal), cujos níveis e estágios são bastante diversificados, e a ausência de visão (cegueira). Há ainda o "resíduo de visão", em que, embora a pessoa tenha um resíduo útil de visão, legalmente é considerada cega.

Por isso, explica a docente, é importante que os professores tenham noção da capacidade visual de seus alunos com deficiência visual, a fim de providenciarem a adaptação necessária.

"Os professores devem compreender como é o funcionamento da visão de seu aluno para saber que tipo de adaptação deve ser feita", observa a especialista, salientando que o desenvolvimento de novas tecnologias barateou o custo de impressoras de ampliação, por exemplo, e diversificou a gama de produtos oferecidos para os deficientes visuais.

"Existem testes para medir a acuidade visual de crianças. Se a criança tem essa acuidade diminuída, o professor deve aumentar o objeto ou ampliar o texto. Também é possível usar lupas. Contudo, é preciso ficar atento ao passar tarefas para adaptá-las a estes estudantes. Uma tática pode ser a utilização de livros e material pedagógico com contrastes", completa a educadora.

Problemas de audição

O acesso à língua de sinais, proporcionado pela escolas às crianças surdas, é determinante para sua liberdade de expressão. Esta é a tese defendida pela psicopedagoga e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Aliny Lamoglia.

Estudiosa há 18 anos da aprendizagem dos surdos, a docente explica que a criança precisa aprender a língua brasileira de Sinais (Libras) para, então, ser incluída numa classe regular, onde deverá ter um intérprete.

"Sem a língua de sinais, estes alunos não conseguem aprender. O processamento do código alfabético depende da fonologia, à qual a criança surda não tem acesso. A surdez é uma diferença e não uma deficiência."

Segundo a professora, que defende uma educação especializada para os surdos, mesmo com a língua de sinais, alunos incluídos nas classes regulares acabam fracassando em Português. "A separação entre educação especial e educação especializada de surdos (língua visual) está claramente colocada."

Contudo, Cláudia Grabois, diretora do Instituto Municipal Helena Antipoff, órgão da Secretaria Municipal de Educação do Rio que coordena o atendimento de Educação Especial na rede, defende a inclusão dos surdos. Segundo ela, na último Conferência Nacional de Educação, o consenso entre os especialistas foi pela inclusão.

"Educação não é apenas aprendizado. Não existe um mundo que funcione exclusivamente para pessoas surdas. Precisamos legitimar as diferenças", afirma Cláudia Grabois, salientando o atendimento inclusivo feito nas escolas da rede municipal.

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