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sábado, junho 26, 2010

Porto Principe, a cidade das tendas

Na capital destruída pelo sismo, é difícil a rotina de voluntários e moradores - Carlos Gois

Passados cinco meses do terremoto que matou cerca de 250 mil pessoas, o Haiti equilibra-se de maneira frágil para tentar se reerguer. Na capital, as cenas se parecem inalteradas desde aquele dia 12 de janeiro: entulho em todos os cantos, prédios caídos, lixo pelas ruas. O que mudou foram as moradias - Porto Principe é hoje um gigantesco camping, com barracas espalhadas em praças, terrenos e inclusive, locais antes frequentados pelos riscos, como o clube de golfe.

Falta de documentos é obstáculo para as eleições

Após o primeiro momento, em que a necessidade mais urgente era distribuir alimentos e água, além das tendas, agora as agências humanitárias e as Forças Armadas tentam devolver um mínimo de normalidade à rotina de haitianos que, mesmo antes do terremoto, já viviam no caos. E entre as necessidades imediatas de hoje está a realização de eleições em novembro - o que não vai ser fácil.

Pela cidade, é comum ver muros pichados com "fora préval", numa alusão ao presidente haitiano, René Préval, e até "Bom retorno Durvalier", em referênciaa Jean- Claude Duvalier, o ditador que controlou com mão de ferro o Haiti de 1971 a 1985. Um dos problemas enfrentados pelo governo e pela Organização dos Estados Americanos (OEA) é o fato de a maioria da população ter perdido documentos e títulos de eleitor no terremoto. Para o general Paul Cruz, comandante militar da Minustah, a força de paz da ONU no Haiti, as eleiçõesirão acontecer. Ele minimiza os protestos que, vez ou outra, têm ocorrido na capital.

- Está tudo na mais absoluta normalidade. Um país que vai passar por um processo eleitoral terá manifestações de vários segmentos. É bom que isso ocorra - diz o general, que comanda 8606 soldados no país. Para Cruz, aos poucos o Haiti está voltando à rotina. A instalação de tendas - apesar de não ser a solução mais apropriada - é a única maneira encontrada de dar abrigo à população.

Agências humanitárias e ONGs internacionais têm se dedicado a administrar esses acampamentos. O ator Sean Penn, por exemplo, fundou a ONG J/P HRO (Haitian Relief Organization) e, desde janeiro, mora num centro para desabrigados com mais 50 mil pessoas. Na sexta-feira, sua entidade formou os primeiros 400 voluntários locais em um curso de primeiros socorros e atuação em catástrofes.

- O campo é como uma cidade. Não queremos que essas pessoas passem o resto da vida aqui - adverte o alemão Daniel Mahrla, um dos administradores da ONG.

Diante da tragédia, há ainda quem lucre com o aluguel das barracas recebidas por agências humanitárias. Joseph Stanley, de 17 anos, mora com a mãe e cinco irmãos em uma tenda pela qual paga mensalmente US$ 30. Falando português, contou que conheceu a atriz Regina Casé, que esteve no Haiti, em 2007. Stanley visitou o Rio durante uma semana daquele ano e pensa em deixar o país.

- Aqui não tem esperança. Preciso estudar e trabalhar para ajudar minha família - diz o jovem.

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