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sexta-feira, julho 30, 2010

caso rafael

Comando da PM: desvio de conduta é o maior problema

O comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio, afirmou em entrevista a Maria Inez Magalhães, do jornal "O Dia", que o maior problema da corporação hoje "é o desvio de conduta". Disse o chefe da Polícia Militar:

- O policial trabalha tão próximo do crime que muitas vezes agrega os valores do criminoso. Criamos um filme e uma peça com policiais que foram expulsos por desvio de conduta. Eles serão apresentados nos quartéis. O policial também precisa ser tratado. Tem que cobrar, mas dizer da sua importância para a sociedade. Por mais que você prepare o homem, você não tira os impulsos dele. Ele não é um robô. A gente expulsa, prende e mesmo assim isso acontece.

A maioria dos soldados é afastada por problemas psiquiátricos, muitos adquiridos durante o serviço. Por isso, estamos aumentando o quadro de psicólogos e os PMs serão submetidos a testes constantes. Um outro compromisso é modernizar a corregedoria. Em 60 dias, ela vai para o antigo Laboratório Industrial Farmacêutico em São Gonçalo. Lá vão funcionar comissões disciplinares que não ficarão mais nos batalhões. É preciso mais independência na hora do julgamento.

Não esperava menos do comandante-geral da PM, que sempre me passou a imagem de um homem íntegro e comprometido com a ética. Mas reconhecer que o desvio de conduta é o maior problema da PM do Rio hoje não deixa de ser um avanço. Ao admitir que o tema corrupção está na ordem do dia, o comando da PM pode estar quebrando um tabu na corporação. Um comandante meter o dedo na ferida, enquanto ela sangra.

Obviamente que a declaração do comandante está contextualizada pelo péssimo momento que vive a Polícia Militar, na questão ética. Se a corporação está à frente de um projeto operacional bem-sucedido, que é a pacificação de favelas antes dominadas por grupos armados, por outro lado demonstra fragilidade quando vêm à tona histórias tenebrosas como a de Rafael Bussambra, que atropelou e matou Rafael Mascarenhas, mas acabou sendo liberado mediante o pagamento de R$ 1 mil a uma dupla de policiais do 23o BPM.

O caso de corrupção não atenua em nada o atropelamento, apenas agrava uma situação do cotidiano. Se policiais estão vendendo impunidade, como ficou comprovado neste caso, podemos estar diante do pior dos gargalos da Justiça: o da cumplicidade entre criminosos e a polícia.

A situação se agrava quando ficamos sabendo que muito provavelmente houve falhas do oficial responsável pela supervisão da dupla de achacadores. Aí o chefe da seção de operações do batalhão também deve satisfações, assim como o comandante da unidade, de quem ainda não ouvi qualquer comentário sobre o episódio. O único que bota a cara a tapa é o comandante Mário Sérgio. Sobre a declaração dele, discordo de trabalhar próximo do crime se agrega valores do criminoso.

A falta de valores, a impunidade, a tolerância da sociedade com o crime e os pequenos delitos podem ser os fatores que levam PMs a romper a linha que os separa dos fora-da-lei. Essa linha só é tênue para quem não fortalece dentro de si valores anticrime e antiviolência. Já reparou que os policiais mais violentos e operacionais são aqueles que acabam se corrompendo? Eles justificam sua queda na falta de reconhecimento social e de seus superiores.

As polícias do Rio necessitam urgentemente de um programa preventivo contra a corrupção policial. Embora apareçam com mais facilidade os casos envolvendo PMs, não há dúvida de que a corrupção é grande também na Polícia Civil, onde as negociatas são feitas dentro das delegacias, sem câmeras nem testemunhas.

Um programa preventivo desses se faz com muita conversa e diálogo com a sociedade. É preciso incrementar os conselhos comunitários de segurança e colocá-los dentro desse debate. É a hora de se criar um disque-denúncia interno, pelo qual o policial honesto poderá se manifestar sem medo de seus pares envolvidos com corrupção e violência.

É preciso que haja coragem de oficiais para que o tema corrupção seja discutido sem medo nos quartéis. Esse processo de catarse pode ainda salvar muitos policiais e contribuir para a revisão de valores da própria sociedade, que também é a matriz da polícia que está aí. Se o Estado e a polícia não comprometerem a sociedade nesse processo, acreditem, vai ser muito difícil mudar alguma coisa.

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