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quinta-feira, julho 22, 2010

Partiu Copacabana - Aydano André Motta

É para fazer Olimpíadas verdadeiramente cariocas? Então, como se diz hoje em dia, partiu: cerimônias de abertura e encerramento em Copacabana. Atlântica fechada, povo no poder da rua, o Rio pleno, de chinelo, sob o sol, em frente ao mar, a cerveja gelada e a alma aberta para amizades eternas enquanto durarem. A diversão de graça, pelo prazer despojado de simplesmente estar perto - esta é a nossa cara. A nossa cara mais olímpica.

Nada contra o Maracanã, templo maior do futebol, coliseu da bola que abrigaraá as duas competições mais importantes da Terra. Por mais elaborados, abertura e encerramento no querido estádio serão mais do mesmo espetáculo patrocinado pelos anéis milionários mundo afora. O dinheiro compra a tecnologia - e com ela, um show como nunca se viu. Aqui, nesta mistura ensolarada de água e montanha, se pode mais.

Como gente é nossa mais reluzente medalha de ouro, vamos com os cariocas, o emblema supremo dos Jogos, da mensagem que o tal movimento olímpico adora disseminar. Na sua acertada bula que conjuga marketing, busca de mercado e compensação geopolítica, os cariocas do COI talvez não saibam, mas acabam de abrir a possibilidade para a exibição dos melhores anfitriões do planeta. Ninguém recebe como o Rio.

Somos PhD em megaeventos, escolados em revéillons que reúnem milhões, ano sim, ano também, na mesma Copacabana. Nos fins de semanado verão, rumamos às dezenas de milhares para as arquibancadas da Sapucaí, nos ensaios técnicos, shows preparatórios das escolas de samba com entrada franca e sem estrutura de segurança. Afora uma ou outra ocorrÊncia, dá tudo magicamente certo.

Na verdade, basta chamar que os cariocas vão, com seu amor pela rua tatuado na alma. Em 1994, a cidade passou a madrugada insone para saudar, numa caravana de paixão da Ilha do Governador a São Conrado, a seleção tetracampeã de futebol. Em abril de 2007, outro milhão se reuniu na Praia de Botafogo, pelas estripulias de uns malucos endinheirados que disputam um circuito mundial de acrobacias de avião. Tudo pretexto. A motivação em quaisquer desses eventos é o encontro com seus irmãos de cidade.

Os olimpocratas vão estrilar, argumentando com a segurança, e, sobretudo, a impossibilidade de cobrar ingressos. Bobagem. Logística se compra - e a criatividade dos produtores de espetáculos está ai mesmo para acender a pira olímpica à distância. Não há dinheiro que pague a chance de começar os Jogos com os atletas recebidos pela população - e terminá-los num reparador banho de mar, na moldura do entardecer do Rio.

Por isso mesmo, as Olimpíadas pousaram no endereço certo. Abertura e encerramento são os momentos mais apropriados para a emoção que, nos 20 dias de competições, concentra-se na luta por medalhas e recordes. Como o homem voador de Los Angeles-1984: as Coreias desfilando unidas em Sydney-2000: a redenção de Muhammad Ali, ao acender trêmulo a pira de Atlanta-1996: a flecha fake de Barcelona-1992: a caminhada no ar do ex-ginasta Li Ning, em Pequim-2008: ou, o momento supremo, as lágrimas do ursinho Misha, o melhor mascote da história, que fecharam Moscou-1980.

Aqui, não será um, mas milhões de cariocas, documento da raça pela graça da mistura, que merecem lugar nesse panteão. Então, partiu Copacabana!

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