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domingo, julho 25, 2010

Por que o feminismo não admite o prazer de ser mãe?

Meu bebê é como um vício - Katie Roiphe

Nas seis semanas que se seguiram ao nascimento do meu bebê, pareço ter perdido todas as ambições mundanas. Só com pavor consigo pensar no retorno ao trabalho. Tenho uma aula para dar. Tenho de voltar a escrever. Mas a ideia de falar de ideias diante de alunos ou de digitar uma frase coerente mostra-se implausível. Parte do meu medo de voltar ao trabalho reflete algumas das minhas incapacidades.

Outro dia, ficou claro que eu careço das faculdades intelectuais para arrumar uma mesa: era desafiador demais manter na cebeça, no caminho da cozinha para o terraço, o número de pessoas no jantar. Uma das causas disso pode ser atribuída aos meus hormônios; outra, certamente, é a falta de sono, por culpa das noites de vigília.

Quando o bebê tinha quatro semanas, tive de fazer uma leitura na Livraria Barnes & Noble com Gay Talese, já que eu havia escrito a introdução do seu "a mulher do próximo". Naquela noite, deixei o bebê com alguém em quem tenho completa e absoluta confiança.

Consegui pôr um vestido e ficar parecida com a "pessoa que faz leituras" que costumava ser. Mas, quando saí à rua, senti como se estivesse me faltando um membro. Embora Telese, sob qualquer parâmetro objetivo, fosse absorvente, minha concentração claudicou.

Enquanto as pessoas faziam perguntas, calculava quanto tempo o táxi levaria para me deixar em casa. Durante o percurso de volta ao lar, chorei. Só quando o bebê estava novamente nos meus braços eu me senti bem outra vez. Lembro-me de ter visitado uma das minhas melhores amigas durante a licença-maternidade. Ela é escritora, e conversamos sobre como as autoras que mais admiramos não tiveram filhos, ou no máximo tiveram só um, mas nunca dois.

Minha amiga olhou para a sua recém-nascida e para seus diminutos cílios. Ela poderia manter a conversa de forma acadêmica, mas ao ajustar o chapéu da menina eu pude ver como ela estava alheia a qualquer outra coisa que pudesse interessá-la.

As pessoas costumam comparar o fato de er um bebê aos primeiros dias de um namoro, o que faz sentido até certo ponto. Mas a fixação física e o anseio pelo bebê são muitos mais intensos. Com que frequência num namoro você se vê literalmente às lágrimas porque ficou longe de um homem durante três horas? Imagino que uma metáfora melhor seria a dependência química.

Uma das desonestidades menorres do movimento feminista tem sido subestimar a paixão dessa fase da vida, para em vez disso tentar uma avaliação racional e politicamente vantajosa. Historicamente, as feministas enfatizam as dificuldades e o peso de se tornar mãe. Elas tentaram traçar uma analogia entre a puericultura e o trabalho masculino; então, por muito tempo as mulheres chamaram a maternidade de "vocação". A tarefa de cuidar de um bebê é árdua e exigente, é claro, mas é mais bárbara e narcótica do que qualquer tipo de trabalho que eu já tenha feito.

Imagino que pessoas normalmente inteligentes e descomplicadas achem esse tipo de conversa sobre bebês muito chato. Noto que, quando tento me forçar a conversar sobre outra coisa que não o meu filhote, tenho de pensar: "aogra é hora de conversar sobre outra coisa que não o bebê". Admito vagamente que isso é que é maçante nos pais, e certamente na nossa atual cultura da paternidade/maternidade: esse fluxo subterrâneo de autocongratulação.

Parte da atração da licença-maternidadeé precisamente esta: você abre mão de tudo. Os livros na estante não são os seus livros; as roupas penduradas no armário não são as suas roupas. Você é o animal vago, lento e exausto, tomando conta dos seus filhotes. Qualquer coisa graciosa, original, aguda ou inteligente que você tivesse sumiu, é a negação total do mundo exterior - mas eis o apelo desse período.

Sei que em algum lugar por ai há um grande mundo, onde as pessoas concersam, pensam e escrevem, mas ainda não edstou interessada em ir para lá.

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