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quinta-feira, julho 29, 2010

É tudo hormônio? Thereza Venturoli

Quando as mulheres saíram às ruas, nos anos 60, para brigar por direitos iguais aos dos homens, o mundo masculino tentou resumir a legítima grita a mero comportamento irritadiço típico do que ainda se convencionava chamar de o segundo sexo. Eles insistiam em dizer que os chiliques - para usar uma definição preconceituosa e machista - a rigor nem eram culpa delas.

Atribuía-se a responsabilidade a um desiquilíbrio hormonal, e o vilão era o estrogêneo. Cientificamente, não há nada de errado na conclusão. Há décadas a medicina reconhece que os hormônios fazem mais que definir as características anatômicas e fisiológicas próprias de fêmeas. Eles têm influência direta sobre diversos outros sistemas e órgãos do ser humano. Mas será mesmo que toda explosão emocional feminina ao metabolismo?

"As mulheres estão, sim, mais sujeitas a altos e baixos emocionais", diz o ginecologista Guilherme Lobo, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo. "Mas é claro que nem tudo se deve apenas aos hormônios".

O estrogêneio e a testosterona, tanto em mulheres quanto em homens, ativam ou desativam determinados genes e desencadeiam a produção de outros hormônios, alguns dos quais agem diretamente sobre o cérebro. A ação hormonal segue ao longo da vida e reforça as distinções anatômicas e fisiológicas entre eles e elas.

Nas mulheres, a partir da puberdade, o estrogênio regula o ciclo menstrual e determina os caracteres sexuais secundários - é por causa dele que os seios femininos crescem. Nas mulheres, a testosterona ajuda a manter a densidade óssea e a libido. E nos homens, determina o crescimento dos pelos publianos e o aumento da massa muscular, enquanto o etrogênio participa da regulação de várias funções reprodutivas.

Em ambos os sexos, a produção de hormônios passa por um pico na puberdade e começa a descrescer, até que, perto dos 50 anos, a mulher chega à menopausa e tem dramática queda no nível de estrogênio. Nos homens, ao fim da idade reprodutiva, a redução na testosterona acontece, mas é bem menos acentuada.

"O que torna a questão feminina mais delicada não é tanto a variação dos hormônios ao longo da vida, mas as flutuações que ocorrem mensalmente", diz Lobo.

Desde o fim dos anos 80, a biomedicina presta especial atenção nos hormônios. A medicina de gênero - aquela que leva em conta o sexo do paciente - obteve grandes avanços.

Sabe-se hoje que as distinções na fisiologia de mulheres e homens desempenham papel decisivo na incidência e nos sintomas de doenças cardiovasculares e desordens do sistema imunológico. Sabe-se também que hormônios femininos, como o estrogênio, podem proteger a mulher de infartos do miocárdio. E que algumas substâncias que entram na composição de drogas antidepressivas podem fazer mais efeito nelas do que neles.

Parte desses avanços deveu-se às campanhas que levaram a indústria farmacêutica a incluir mulheres nos testes clínicos de novas dorgas. Problema maior é determinar o papel dos hormônios no diagnóstico de desordens mentais e sua influência real no tratamento.

Nesse caso, a medicina se vê diante de um velho dilema da ciência: até que ponto tudo é uma questão de natureza biológica da mulher ou influência do ambiente em que ela vive? O problema é que ninguém ainda soube definir o real alcance de ação dos hormônios.

Exemplo da dificuldade em separar o joio do trigo são as dúvidas que a medicina tem sobre os mecanismos que desencadeiam a depressão - mal que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), afeta mais de 150 milhões de pessoas.

As pesquisas demonstram as mulheres são duas vezes mais sujeitas à doença do que os homens. Uma das explicações propostas para essa discrepância estatística é que as flutuações hormonais durante a idade reprodutiva alteram a liberação e o metabolismo de neurotransmissores como a serotonina, que afetam os centros relacionados às emoções no cérebro. Ao mesmo tempo, esse desiquilíbrio parece elevar a produção de cortisol, o hormônio do stress.

Um estudo com camundongos publicado em 2008 por especialistas da Universidade da Pensilvânia demonstra que a administração de testosterona nas fêmeas reduz os sintomas de stress - e, portanto, de depressão. mas a terapia funcionou apenas para ratinhas adolescentes. Ou seja, tudo indica que não basta saber que hormônio atua e onde ele atua, mas, também, quando atua.

O próprio diagnóstico da depressão pode ser mascarado pelos sintomas da doença entre homens e mulheres e pela forma como esses sintomas são interpretados. Nelas, a depressão caracteriza-se por uma profunda tristeza e paralisia diante de tarefas simples do cotidiano. Neles, o desconforto costuma se manifestar como um sentimento generalizado de irritação e agressividade. Regularmente, esses sentimentos são atribuídos a um bate-boca com o chefe ou ao trânsito pesado do fim da tarde. Mas um especialista sabe: essa raiva à flor da pele é a forma pela qual a depressão se manifesta nos homens. Como depressão não é considerada "coisa de homem", raramente buscam ajuda o desconforto.

Resultado: ainda que as estatísticas indiquem que existem duas mulheres deprimidas para cada homem com a mesma desordem, são eles que cometem a maior parte dos suicídios no mundo. O peso da cultura do "homem nao chora" é tão grande que o Instituto Nacional de Saúde Mental, nos EUA, lançou em 2003 uma campanha de esclarecimento da população masculina intitulada "Homem de verdade, depressão de verdade". Ou seja, ao menos quando se trata de depressão, eles parecem ser tão suscetíveis quanto elas. Falta apenas reconhecer essa constatação.

Para a antropóloga Fabíola Rohden, autora de "uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher (editora fiocruz), resumir tudo a essas substâncias produzidas pelo organismo é, no mínimo, exagero.

"A ideia de que os hormônios são responsáveis por todas as perturbações mentais tradicionalmente associadas às mulheres é tão parcial e incompleta quanto a que vigorava no século XIX de que o sexo feminino era regido pelos ovários".

"Se a culpa é só dos hormônios, então não há o que fazer, a não ser acomodar-se a esse ditante da natureza e, no máximo, tentar controlar os desconfortos decorrentes", completa a psic[ologa Regina Senna, da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. Para ambas as pesquisadoras, esse é um caso típico em que é impossível separar a biologia da cultura.

A dificuldade em definir os limites entre fisiologia e ambientes no comportamento feminino fica clara em estudos recentes. Eles mostram que mulheres vítimas de violência doméstica ou de abuso sexual estão duas vezes e meia mais sujeitas à depressão do que aquelas de vida tranquila.

"As pessoas costumam imaginar que esse tipo de violência resulta apenas em um olho roxo ou um osso quebrado", diz Amy Bonomi, da Universidade do Estado de Ohio, autora de uma pesquisa que avaliou mais de 3000 mulheres em 2008. "Mas os dados comprovam que a depressão e o isolamento social são consequências comuns nesses casos, e podem durar anos".

A busca de uma causa biológica para as perturbações emocionais femininas tropeça numa charada do tipo "o que veio antes, o ovo ou a galinha?". Em outras palavras: o que vem antes, os hormônios ou a experiência de vida?

Os hormônios dependem, eles mesmos, de estímulos externos. "Por mais que predomine a determinação genética, qualquer situação de stress deflagra uma reposta hormonal, que, por sua vez, tem reflexos em outros hormônios que deflagram certas emoções", explica Antonio Egidio nardi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializado em desordens do humor e da ansiedade.

A filósofa australiana Elizabeth Grosz, professora da Universidade Rutgers, nos EUA, encontrou uma boa imagem para a questão hormonal feminina: a faixa de Moebius, na versão do artista gráfico holandês Maurits Escher. Na interpretação da especialista na representação da mulher na ciência e nas artes, a biologia está na parte interna da fita e as influências do meio, na parte externa. Mas a faixa é dobrada de tal maneira que tudo se entrelaça e é impossível manter-se numa única face. Ou seja, não há como separar a biologia do ambiente.

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