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terça-feira, julho 20, 2010

A socióloga Agenita Ameno diz que os amantes combatem a monotonia do casamento e tornam cor-de-rosa o mundo de homens e mulheres insatisfeitos

"Monogamia é farsa"

A socióloga Agenita Ameno diz que os amantes combatem a monotonia do casamento e tornam cor-de-rosa o mundo de homens e mulheres insatisfeitos

Desde os tempos da faculdade, o binômio casamento-traição intriga a socióloga mineira Agenita Ameno, que dedicou os últimos oito anos ao tema. Entrevistou mais de 400 homens e mulheres, todos casados há pelo menos cinco anos.

Do total, 40% admitiram manter relacionamentos extraconjugais ou ter tido casos no passado. Os homens traem com maior freqüência. As mulheres, porém, têm cada vez mais recorrido à distração sexual com outro parceiro. O trabalho resultou num livro inevitavelmente polêmico - A Função Social dos Amantes na Preservação do Casamento Monogâmico -, recém-lançado pela Editora Autêntica.

Época: Por que a infidelidade cresce?
Agenita Ameno: Os amantes são uma espécie de remédio. Combatem o efeito corrosivo da união monogâmica sobre a individualidade dos parceiros. Quem mais recorre a essa droga são os homens. Eles se sentem mais incomodados, como se tivessem perdido um espaço vital com o casamento. A mulher, por sua vez, vive em função dos outros o tempo todo. Assume o papel maternal. Mãe é a mulher que não age por vontade própria. Essa é a mulher valorizada na sociedade, não a fêmea.

Época: A infelicidade leva à traição?
Agenita: O homem quer recuperar o espaço perdido. Nesse sentido, o casamento é desconfortável para ele. É como uma casa sem banheiro, só com sala de visitas, sem lugar para a privacidade, para os desejos íntimos. O homem reconquista esse território com a amante. A mulher muitas vezes trai por vingança, por descobrir que o marido tinha outra. Mesmo quando trai, age em função do outro, não por vontade própria.

Época: Por que as pessoas se casam?
Agenita: Porque morrem de medo de ficar sozinhas. Casar é uma obrigação social. O mundo é feito para que as pessoas constituam família. Quem foge à regra vive a sensação de fracasso. A sociedade faz da solidão um monstro. Quase não existem programas para solitários, só para famílias e casais.

Época:
A senhora acha a fidelidade prejudicial ao casamento?
Agenita: Exigir fidelidade é uma violência. Somente quando são traídas as pessoas percebem que ninguém merece dedicação exclusiva. Num casamento autêntico, não é necessário prometer fidelidade. Quem realmente quer ser feliz e livre não precisa disso.

Desejo é algo particular, não deve interferir na relação com o parceiro. Acho que o sexo deveria ser tratado como necessidade fisiológica. É como ir ao banheiro. Ninguém pede permissão. A união monogâmica é uma farsa e o triângulo amoroso um embuste com a sutil finalidade de mantê-la. A amante fantasia-se de fêmea para agradar ao homem e, assim, ajuda a preservar o casamento dele.

Época: De que forma isso ocorre?
Agenita: Os homens mantêm a amante na sombra e a esposa em público. Querem transitar com tranqüilidade pelas duas esferas. Quando a amante cria essa possibilidade para ele, o casamento torna-se mais confortável.

Época: Quando ocorre a traição?
Agenita: Em geral, no nascimento do primeiro filho. É a fase crítica, quando o homem descobre que se casou com a mulher-mãe. Para se sentir na pele do macho, precisa da mulher erotizada.

Época: Amantes costumam invejar a situação das esposas e vice-versa...
Agenita: Essa é a contradição. Se todos estivessem satisfeitos, o triângulo seria apenas um artifício para manter a instituição. Não é o que acontece. No fundo, a amante não se comporta como fêmea por sua escolha. Ela aceita viver à sombra e tem inveja da mulher legítima. Não raciocina na linha "estou aqui porque o sexo me satisfaz e é bom ficar entre quatro paredes". Na outra ponta, a esposa sonha ser tratada como fêmea, embora saiba que a sociedade não valoriza a mulher erotizada.

Época: A mulher que vive o papel de dona do lar está fora de moda?
Agenita: A mulher que não trabalha está fora de moda. É revolucionária a mulher que reclama por trabalhar oito horas por dia exigindo mais tempo para ficar com os filhos, para sair e namorar. Ela, porém, precisa provar à sociedade que dá conta do recado. Esse é o problema da mulher moderna: tem de mostrar que é alguém muito capaz, porque se espelhou no homem e resolveu sair de casa. Não sabe, como ele, que é fundamental a busca do prazer.

Época: Quer dizer que, nesse quesito, o homem é superior?
Agenita: Sim, ele sabe fazer coisas por puro prazer. A mulher prefere a renúncia a brigar por isso. Se o homem costuma jogar futebol e, no dia de jogo, a mulher tem um encontro com uma amiga, surge o impasse doméstico: quem ficará com as crianças? Se a esposa realmente não pode, o homem procura a sogra, os tios, leva as crianças com ele, mas não abre mão do divertimento. A esposa, diante da menor dificuldade, acha mais fácil não encontrar a amiga e fica em casa. O homem é mais criativo ao solucionar problemas dessa natureza.

Época: Ao concluir a pesquisa e o livro, a senhora diria que a existência de um amante melhora o casamento?
Agenita: Um amante torna o mundo cor-de-rosa. Só que "a outra" ou "o outro" existem num espaço reservado. Intimamente, quem está com alguém fora do casamento vive um momento muito particular. Está exercitando uma individualidade que julgava perdida. Sente-se mais feliz e, não por acaso, esse estado de ânimo termina por revigorar o relacionamento com o cônjuge.

Época: Que tipo de mulher procura um amante?
Agenita: Há uma diferença sutil aqui. O homem busca fora do casamento a mulher erótica. Ele corre atrás dessa figura que lhe dará prazer. A esposa que se lança numa aventura está em busca de uma mulher, da fêmea que existe adormecida dentro dela. A mulher que trai está à procura de si mesma.

Época: É possível conciliar essas duas faces do feminino?
Agenita: O homem é individualista. A mulher tem duas naturezas: a egoísta e a altruísta. Aquela que é mais independente concilia as duas faces. Precisamos erotizar as damas-de-ferro e intelectualizar as tiazinhas e as feiticeiras.

Época: A senhora não poderá ser vista como inimiga pública do casamento?
Agenita: Não inventei os amantes nem os recomendo. Apenas os tirei do armário.

(Daniela Mendes)

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