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quinta-feira, agosto 05, 2010

Corpo a corpo - Alberto Goldin

Tenho 35 anos, sou solteira e compulsiva por comida (obesa). tenho síndrome do pânico, humor depressivo-ansioso e sou bem fóbica. Saio, trabalho, me relaciono, tento enfrentar meus medos. Mas é impressionante minha relação com a comida. Às vezes faço dieta por uma, duas semanas, e parece que a represa rompe, e vem o desespero pela comida. E tenho uma mãe controladora, que acha tudo perigoso.

Na terapia, vi que eu me protegia imaginando que ao emagrecer tudo seria perfeito e que por medo de nada serperfeito mesmo magra, boicotava dietas. Que para o meu pai era importante ter filha magra, ele sempre mostrava admiração quando eu emagrecia. Que me relacionar com as pessoas é difícil, acho que não vaão gostar de mim. Vi muita coisa, mas nada que me faça abrir mão da compulsão que me atormenta. (Maria, RJ)

Dois personagens num mesmo corpo. Um adulto e outro infantil, unidos por um misterioso pacto. O adulto dá ordens, a criança finge entender, mas não obedece, rebela-se e impõe sua vontade... Adora irritar, contradizer, fazer pirraça.

- O que é melhor?
- pergunta Mariazinha, sorridente.
- Ser silenciosa, quase invisível, ou estar presente como diabinho contestador, arrogante e presunçoso, que faz caretas e dá risada?

O incrível é que ela se impõe patéticas comilanças, porque as crianças são insatisfeitas e insaciáveis, porém, por serem inocentes e irresponsáveis, podem provocar catástrofes por simples diversão. Obrigadas a comer, fecham a boca; quando se limita o alimento, comem em dobro.

A compulsão humana se constrói sobre essa estrutura: fumar mais quando quer parar, ter muita sede durante a abstinência alcóolica, gastar quando precisa economizar... Maria quer emagrecer? Mariazinha comerá em dobro. Nesse interminável balé, consomem seus estoques. Uma ordena, a outra desobedece, porque sabe que a obediência traz paz e harmonia, o que interrompe o diálogo e ameaça o espaço imaginário que ambas criaram.

Sem conflito, Maria terá tempo de enfrentar a si mesma, e a pequena Mariazinha, se obedecer, desaparecerá, dissolvida na solidão das lembranças. Juntas e em conflito, se perpetuam, se fazem companhia e garantem a sobrevivência mútua. O motivo da disputa é o alimento. Sem comida, os corpos morrem; com excesso, engordam.

Maria, impotente, entende o problema e adivinha a solução, mas não sabe como programá-la. Poderia controlar sua alimentação e reduzir seu peso caminhando, correndo ou nadando. Não faz isso porque, nessa hora, Mariazinha, começará a chorar e a exigir comida. Não por fome, mas por terror. Se Maria alcançar seu obejtivo de emagrecer, Mariazinha, sai de cena, perde sentido e morre.

Por isso precisam estar juntas para recomeçar o ritual: maria come e se recrimina, Mariazinha escuta levantando os ombros. Com a culpa há choro, gritos de arrependimento... Unem-se pelo crime, sabem que sem pecado não há culpa e sem culpa dissolve-se a sociedade mafiiosa do compulsivo. Um adulto responsável e uma criança sem controle são os dois personagens de poder simétrico que compartilham o mesmo corpo numa gravidez histérica e assexuada, mãe e feto, num discurso interminável que só acaba na próxima comilança. Maria não sabe como atravessar a infância sem ficar refém do passado.

Para lembrar a infância, é preciso perdê-la, já que, se Mariazinha continua viva, deixa de ser lembrança para ser fome, voz, desejo que se incorpora e exige, ou pior ainda, luta ferozmente para sobreviver.

meu texto foi impetuoso e desorganizado, porém não foi escrito para a maioria, mas para solitários como a Maria, que passam a vida tentando convencer o passado de que merecem um futuro. Claro que merecem!

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