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domingo, outubro 31, 2010

Estudo investiga relação de óxido nítrico com transtornos psiquiátricos/ Elena Mandarim

Boletim FAPERJ 2010 

 Divulgação/Uerj
         
          Antônio Claudio Ribeiro e Tatiana Brunini: pioneiros na identificação do transportador específico da L-arginina 






















A depressão é a quarta doença que mais causa incapacidade no mundo. Estima-se que até 2020 alcance a segunda posição, ficando atrás apenas das doenças cardíacas, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Para Antônio Claudio Mendes-Ribeiro, Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, esta estatística pode ser ainda mais assustadora se forem confirmadas as crescentes evidências que mostram uma associação direta entre transtornos psiquiátricos e problemas cardiovasculares. 

Junto com a professora Tatiana Brunini, ele coordena o Laboratório de Transporte de Membrana (LTM), do Departamento de Farmacologia e Psicobiologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde são desenvolvidos estudos detalhados sobre a via L-arginina-óxido nítrico, em diversas patologias. Entre elas, as psiquiátricas.

"A nossa suposição é que as doenças psiquiátricas alteram a via de produção de óxido nítrico, que tem como precursor o aminoácido L-arginina, causando problemas cardiovasculares", adianta Mendes-Ribeiro.

Para testar essa hipótese, segundo o pesquisador, estão sendo desenvolvidas três linhas de pesquisa. Na primeira, Vivian Liane Mattos Pinto, em sua tese de doutorado, estuda os efeitos do transtorno depressivo na via L-arginina-óxido nítrico e suas possíveis implicações na ocorrência da doença cardiovascular. E investiga ainda os efeitos do exercício físico sobre o quadro da depressão em modelo animal. 

"Sabe-se que pacientes com depressão morrem mais precocemente e acredita-se que 75% desses óbitos sejam devidos a causas cardiovasculares", conta Mendes-Ribeiro.

Em outra, Natalia Rodrigues Pereira, nutricionista e doutoranda, está investigando a fisiopatologia da anorexia nervosa – transtorno alimentar que distorce a percepção de beleza, levando à restrição alimentar.  

"Entre outras coisas, estamos observando o transporte de L-arginina e a síntese de óxido nítrico, bem como a função plaquetária e o ciclo da ureia em hemácias e plaquetas de pacientes femininas que sofrem de anorexia nervosa", explica Mendes-Ribeiro.

Por fim, a mestranda Paula Fontoura Coelho de Souza avalia se há envolvimento da via L-arginina-óxido nítrico na relação entre o transtorno bipolar e a doença cardiovascular. "Pacientes com transtorno bipolar apresentam duas vezes mais chances de desenvolver problemas cardiovasculares, se comparados à população em geral", diz Mendes-Ribeiro.

Motivações dos estudos

O óxido nítrico é produzido por diferentes células e, em muitas delas, há necessidade do transporte da L-arginina do meio extracelular para o intracelular, que, paradoxalmente, já é rico em L-arginina. 

Os professores Antônio Cláudio Mendes-Ribeiro e Tatiana Brunini foram pioneiros na caracterização do transportador específico desse aminoácido em plaquetas humanas. E agora concentram suas pesquisas no detalhamento dessa via em diversas patologias, observando as consequências de sua alteração. 

Segundo Mendes-Ribeiro, o óxido nítrico age como um protetor cardiovascular, modulando funções importantes, como relaxamento do endotélio – camada simples de célula que reveste a parte interna de vasos e artérias e as cavidades do coração –, vasodilatação, neurotransmissã o e função das plaquetas – fragmentos de células com função de formação de coágulos em resposta a rompimentos de vasos e a eventos infecciosos. 

Portanto, anormalidades em sua biodisponibilidade podem causar arterioesclerose, que é o espessamento de artérias, e trombose, que é a formação de grandes coágulos que circulam na corrente sanguínea e que podem causar embolia, obstrução de uma veia ou artéria. 

"Esses dois eventos, principalmente, levam a complicações cardiovasculares, como acidente vascular cerebral e infarto, principais causas de morte em pacientes com insuficiência renal crônica, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca e doenças psiquiátricas", explica Mendes-Ribeiro. 

Ele conta que em estudos anteriores, foram observadas alterações na via L-arginina-óxido nítrico decorrentes, entre outros, da insuficiência renal, da síndrome metabólica e da periodontite. 

"Agora, nosso foco são as doenças psiquiátricas, que representam fatores de risco cardiovascular", diz. 

"A depressão, por exemplo, já é considerada fator de risco independente, como fumo, sedentarismo e obesidade. É equivalente a fumar dois maços de cigarro por dia", exemplifica o pesquisador. 

As pesquisas e seus resultados preliminares

 Divulgação/Uerj
   
Grupo identificou a diminuição
na produção de óxido nítrico 
em pacientes com depressão, 
anorexia e transtorno bipolar  
















Mendes-Ribeiro explica que a depressão é um transtorno afetivo, que causa alterações fisiológicas – incluindo ativação do sistema nervoso autônomo, distúrbios do ritmo cardíaco, processos inflamatórios e hipercoagulabilidad e –, que influenciam negativamente o sistema cardiovascular. Contudo, existem evidências sobre a repercussão positiva do exercício físico nesses transtornos de humor.

Nessa parte do estudo, segundo o pesquisador, foram comparados pacientes com quadro clínico depressivo e pacientes saudáveis. 

"Pudemos verificar uma diminuição no transporte de L-arginina e de síntese de óxido nítrico em pacientes deprimidos, o que validaria a suposição de que a redução da biodisponibilidade de óxido nítrico seria o link entre depressão e doenças cardiovasculares", diz. 

Para avaliar os efeitos da atividade física, foram comparados animais saudáveis com modelos animais de estresse pós-natal, que simulam o comportamento da depressão. 

"Metade de cada grupo foi submetida ao planejamento de exercício físico e a outra metade permaneceu sedentária", explica Mendes-Ribeiro. 

"Nossa conclusão preliminar demonstra que a atividade física foi capaz de reverter o efeito do estresse pós-natal, ou seja, o efeito dos transtornos de humor", complementa.

No caso da relação entre óxido nítrico e anorexia nervosa, Mendes-Ribeiro conta que os estudos descritos na literatura ainda são escassos. Entretanto, sabe-se que complicações cardiovasculares são representativas nas mortes de pacientes anoréticos. 

"Por isso, a compreensão da fisiopatologia desse transtorno é importante para que novas terapêuticas possam ser empregadas", explica o pesquisador. 

Nessa outra linha de pesquisa, foram comparadas hemácias e plaquetas de indivíduos saudáveis com as de pacientes com anorexia. Segundo o pesquisador, os resultados preliminares são intrigantes. 

"Apesar da baixa produção de óxido nítrico observada nas pacientes anoréxicas, outros marcadores estudados se mostraram favoráveis a proteção cardiovascular", afirma. "Vamos agora investigar esses resultados", acrescenta.

Na outra vertente, Mendes-Ribeiro explica que o transtorno bipolar é um transtorno crônico, caracterizado por episódios de depressão ou mania, intercalados com períodos assintomáticos, chamados de eutimia. Para esse estudo, foram analisados 10 indivíduos saudáveis e 28 pacientes bipolares, sendo 10 em eutimia, nove em depressão e nove em mania. 

" Pelos resultados obtidos, observou- se uma redução da atividade enzimática que produz o óxido nítrico em todos os pacientes bipolares", diz o pesquisador. 

Mendes-Ribeiro conta que o objetivo de seu grupo é aproximar a pesquisa básica da clínica. "Sempre buscamos trazer para o laboratório as problemáticas observadas nos hospitais e consultórios", diz. Há também o intuito de cada vez mais tornar as pesquisas multidisci plinares, tanto pelos alunos de pós- graduação, quanto pelas parcerias com outros pesquisadores. 

" Temos alunos de diversos cursos, como nutrição, odontologia e psicologia. Monique Moss, por exemplo, é médica e trabalha conosco no laboratório há 11 anos", conta. 

"Além disso, somos muito gratos a diversas parcerias traçadas com o professor, e nosso mentor, Roberto Soares de Moura, e com a professora Ângela Resende", conclui.

Os cientistas concordam com a complexidade fisiológica das doenças psiquiátricas. E as projeções dos órgãos mundiais de saúde mostram que boa parte da população sofrerá com algum distúrbio psiquiátrico. 

Portanto, é bom saber que há pesquisadores se empenhando no estudo de base, investigando a dinâmica da patologia a nível celular, o que é extremamente importante para subsidiar os avanços da pesquisa aplicada. 

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

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