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terça-feira, julho 26, 2011

Especialista italiano aponta características que comprometem investimentos e diz que entender limites ajuda a evitar erros

Quando o excesso de confiança é prejudicial - Lucianne Carneiro

Especialista em finanças comportamentais, o italiano Andrea Frazzini acredita que o execesso de confiança é a principal das características que comprometem investimentos. Se na vida real pode, por exemplo, ajudar a conquistar um emprego novo, na hora de investir é perigoso por estimular o excesso de negociações. A relutância em se desfazer de aplicações financeiras que geraram perdas e a falta de diversificação são outros comportamentos desfavoráveis na sua avaliação.

Investidores tendem a vender ações com lucro em um curto período de tempo e manter ações com prejuízo por um longo período de tempo - diz o professor da Chicago Booth - a escola de negócios da Universidade de Chicago - e vice-presidente do grupo Seleção de Ações Globais, da empresa de investimentos AQR, em entrevista nos Estados Unidos. 
PRINCIPAL ERRO NO COMPORTAMENTO DE INVESTIDORES: 

"Em psicologia, há algumas características que fazem os investidores desviarem do que chamamos de comportamento racional. Alguns desses comportamentos são tranquilos e até desejados no dia a dia, mas não tão bons quando se trata de investimentos. Excesso de confiança, por exemplo, é a principal dessas características. 

Na vida real, excesso de confiança é ótimo, pode ajudar a conseguir um bom emprego ou a convidar uma mulher para um encontro. Mas não é tão bom quando se trata de investir. Nós superestimamos nossa habilidade de desemprenhar determinada tarefa. 

Quando perguntamos às pessoas se elas dirigem melhor que o motorista regular, cerca de 70% vão dizer que sim. Mas metade será melhor e metade pior. Excesso de confiança ao investir é perigoso porque os investidores tendem a negociar demais e, geralmente, esse excesso de negócios representa custos e eles perdem dinheiro".

OUTRAS LIMIATAÇÕES AO INVESTIR:
"Outro comportamento que traz dificuldades ao investir é uma espécie de autoatribuição tendenciosa. Isso significa que Às vezes atribuímos eventos às nossas habilidades quando são resultado apenas de sorte. Por exemplo, você compra uma ação e seu preço sobe. Logo, acredita que é um gênio. Se a ação cai, é azar. 

As pessoas acreditam que são habilidosas, quando a maior parte de seu desempenho se deve à sorte. Por exemplo, na bolha da internet muitos compraram ações e se tornaram ricos. E pensaram que tinham habilidade para isso. O terceiro comportamento afeta não apenas quem investe em ações, mas também no mercado imobiliário, que é o efeito disposição. 

Há evidências de que os investidores relutam em realizar perdas. Se uma pessoa compra uma casa por  US$ 1 milhão e os preços caem, ela nunca vai colocar à venda por um valor menor que esse. Outro ponto delicado é a diversificação insuficiente. 

A teoria financeira sugere que se diversifique o máximo possível. Mas vemos casos espetaculares de não-diversificação ou antidiversificação. Um exemplo típico pe investir o dinheiro de sua aposentadoria nas ações da empresa em que trabalha. É geralmente uma ideia terrível, pode perguntar a qualquer executivo da Enron. 

Outro comportamento que me vem à mente é a tendência de os investidores terem um montante desproporcional de seus investimentos devem diversificar e ter uma grande cesta de ações, não deve existir diferença se o investidor está nos Estados Unidos ou na Itália".

EFEITO DISPOSIÇÃO:
"O efeito disposição aponta que os investidores se preocupam muito com o preço que pagaram pelas ações. E esses investidores tendem a vender ações com lucro em um curto período de tempo e manter ações com prejuízo por um longo período de tempo. 

Pela teoria, o preço que pagou por um papel não deve ser determinante na decisão de venda. Nos Estados Unidos, há incentivos tributários para vender ações com perdas, já que se pode usar isso para compensar ganhos com outros investimentos. Mas os investidores não fazem isso". 


PRINCIPAIS MODELOS DE COMPORTAMENTO DO INVESTIDOR:


"Em finanças comportamentais, não há uma teoria única. Existem certos modelos que explicam alguns tipos de comportamento, outros explicam outros. 

A teoria do prospecto, por exemplo, diz basicamente que temos prazer ou dor dependendo dos ganhos ou perdas em relação a um ponto-âncora, que é frequentemente o preço da compra. Se comprou uma ação da IBM por US$ 100, terá ganho de US$ 20 se vender por US$ 120 ou perda de US$ 20 se vender por US$ 80".


DIFERENÇAS ENTRE INVESTIDORES:


"Sabemos que há diferenças entre as pessoas. Por exemplo, há estudos que indicam que homens tendem a ter mais excesso de confiança que as mulheres. O mesmo ocorre com os jovens na comparação com os mais velhos. 

Mas, quando se trata de investidores entre diferentes países, não há muitos dados disponíveis. E os que existem não incluem o Brasil. Nos estudos que comparam investidores americanos e escandinavos, por exemplo, não se vê muita diferença de comportamento".


MUDANÇA DE COMPORTAMENTO PÓS-CRISE:


"A crise de 2008 ainda é muito recente e não há dados disponíveis  (sobre mudança de comportamento do investidor). Não tenho conhecimento de estudos que mostrem mudanças nas últimas crises financeiras, mas há evidências de que isso ocorreu após a última bolha de internet. 

Após o estouro da bolha, investidores individuais mostram menos comportamento tendencioso que antes. Alguns dizem que isso ocorreu porque os mais tendenciosos perderam muito dinheiro e pararam de investir".


INFLUENCIA DO PASSADO:


"Temos evidências de qie o passado influencia as decisões de investimento e isso é verdade tanto no que se refere ao portifólio quanto às experiências pessoais. Há estudos acadêmicos que apontam que aqueles que viveram em períodos de inflação elevada ou choques no mercado financeiro tendem a mostrar maior aversão ao risco que os demais. 

O histórico de rentabilidade dos investimentos afeta a maneira como o investidor pensa sobre risco. Se você tem experiências de retornos negativos, por exemplo, é mais provável que passe a investir em opções mais seguras. Aqueles que investiram durante a última crise e perderam dinheiro tendem a buscar alternativas de menor risco. É doloroso perder dinheiro. Quando se vive isso, aprende-se o que é a dor e passamos a assumir riscos".


MAIOR RISCO SEM MAIOR RETORNO:


"A teoria financeira tradicional aponta que aplicações de maior risco devem ser recompensadas com maior retorno. Mas, desde a década de 70, essa ideia é questionada. Para ações dos Estados Unidos, por exemplo, maior risco não é recompensado com maior rentabilidade. Na verdade, o retorno é o mesmo".


IMPORTANCIA DE ESTUDAR COMPORTAMENTO DO INVESTIDOR:


"Nós da AQR gastamos na hora o comportamento do investidor por duas razões: construir melhores portifólios de aplicações financeiras e ajudar a evitar esses erros de comportamento. Não sou diferente das demais pessoas, também sofro desses aspectos, mas tenho conhecimento deles e os levo em consideração na hora de investir".

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