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domingo, novembro 13, 2011

Morremos tal qual vivemos - J.J. Camargo

Excetuadas as perdas extemporâenas - quando o sentimento dominante é de pasmo desesperado - as mortes ditas naturais representam o fim de um ciclo vital e o comportamento das pessoas envolvidas reflete o jeito com que se relacionaram enquanto o ciclo durou. E tudo porque morremos como vivemos, sem mistificações.

A serenidade neste transe, que por ser natural não deixa de ser doloroso, identifica o filho carinhoso que amou e foi amado, e vê a perda do pai como um legado de saudades que se eternizará no cortejo de exemplos a serem repassados aos seus próprios filhos, que amarão e serão amados porque aprenderam com o estoque carinhoso do avô que partiu, e seguirá presente no modelo vivo do pai reciclado no mesmo afeto.
Invariavelmente o mais agressivo e inconformado pela perde eminente é o mau filho, atormentado pelo afetos não correspondidos, pelas chances desperdiçadas de ternura incompreendida e pelos amores nunca confessados.

E o médico no caminho desse tornado de emoções é tratado com gratidão e respeito pelos bem amados, enquanto que os desgarrados o responsabilizam pela morte, por mais inevitável que ela possa ter sido, porque perceberam tarde demais que essa chance única de intercambio afetivo, ums vez perdida, nunca mais será resgatada. E, claro, precisam transferir esta culpa insuportável.
É reconfortante o exercício do luto por uma família com vida, afeto, herança e saudade bem resolvidos. E deprimente o jogo de culpa dos que só se deram conta depois da perda, que o vazio da falta será sempre e nada mais do que isso: um imenso vazio.

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