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segunda-feira, março 05, 2012

O novo bonito - Rosana Caiado

A beleza sobe à cabeça.
 
Beleza nunca esteve entre suas maiores qualidades. Para falar a verdade, o cara era um bagulho. De repente, por motivo de dieta, exercícios, ou mesmo amadurecimento, ficou bonito.
É natural que ele não saiba se comportar em sua recém-adquirida condição.

E, tal qual o novo rico, fica deslumbrado: comete gafes e exageros, humilha os antigos amigos, usa roupas de gosto duvidoso, preza a quantidade e adora ostentar. Trata-se do novo bonito.

Está cheio deles por aí. O que me inspirou a escrever a coluna usa óculos escuros e acaba de tirar a camisa. Olha de cima à baixo todas as minhas amigas e descarta uma - as feias que o desculpem, mas o novo bonito tem preconceito com elas.

Seguro de si, puxa assunto com a mais bonita, que é linda de nascença: morena, tem os cabelos mais lisos e os dentes mais brancos que já vi, o corpo desenhado pela mãe, além de olhos de amêndoa. Beijam-se, sem que eu possa alertá-la - “novo bonito é furada”.

A beleza sobe à cabeça.

Me sinto à vontade para falar mal do novo bonito, porque já fui uma - o conceito serve tanto para homens como para mulheres. Na época da escola, eu usava legging por baixo da calça jeans para aparentar pernas mais grossas e, principalmente, aumentar o bumbum. Não fazia sucesso na colônia de férias e mais de uma vez me vi obrigada a fazer par com outra menina, o que me deixava tristíssima.

Quando entrei na faculdade, virei bonita. Não foi da noite para o dia. Meu corpo vinha se desenvolvendo já há algum tempo mas ninguém percebia, atada que eu estava ao rótulo de magricela. Então passei a frequentar a PUC de short (branco) e ainda saí com dois meninos do mesmo grupo (Marcelo e Alexandre) - um clássico da nova bonita.

O problema de muitos novos bonitos é que beleza não vem com elegância. No afã de aproveitar o status de belo e compensar as frustrações da oitava série, o novo bonito é um pobre desastrado que acaba caindo no ridículo.

Depois de beijar a minha amiga mais bonita, o novo bonito obviamente não telefonou no dia seguinte nem ligará nos meses que se seguem, ocupado que está em ser bonito. Mas isso não é nada. Pior é ser o novo feio.

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