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sexta-feira, abril 20, 2012

O intenso desejo sexual do brasileiro

Por Valdeci Gonçalves da Silva
valdecipsi@hotmail.com

 
“A sensualidade é celebrada e se relaciona, no nível mais profundo,  com o que significa ser brasileiro. [...] No entanto, é possível detectar uma certa ambivalência, situada não muito abaixo da superfície dessa celebração da sensualidade...” (Richard G. Parker). 
 
O povo brasileiro está no topo do ranking das populações que mais transam (CARVALHO, 2006), mas o dado quantitativo de muitas práticas é, quase sempre, uma questão sintomática, ou seja, há sexo em grande quantidade, porque o mesmo encontra-se desprovido de ingredientes, a exemplo da paixão e do amor, que o tornariam menos frenético e, como conseqüência, mais satisfatório. 

Em vez disso, o sexo passa a ser uma válvula de escape, um analgésico disponível em cada esquina para aliviar as tensões e as angústias do dia-a-dia. Termina servindo como um desaguadouro para as insatisfações geradas nos demais segmentos da vida. Desse modo, o sexo assume determinada característica compulsiva ou de fixação, “um saco sem fundo” que, portanto, nunca consegue se fazer preenchido. 

Depois da breve negociação impessoal que caracteriza o “ficar” - na verdade um playground de sensações solitárias e de prazeres masturbatórios, em que cada um aproveita ao máximo, do contrário esteja atento para não perder o gozo nas próximas “rodadas” (SILVA, 2010) -, deu-se um passo a frente na degradação sexual exemplo disso são as tais pulseiras coloridas, que evitam ou poupam os sujeitos de qualquer intenção de interação afetiva ou subjetiva, indo logo ao finalmente: apenas sexo pelo sexo. 

Para isso, basta romper uma frágil e descartável argola de plástico. O que dizem agora os especialistas psicólogos e sexólogos que apoiavam o “ficar” como um comportamento salutar para o aprendizado da afetividade e da sexualidade juvenil? 

O sexo autorizado pelas pulseiras é direto, mais “coisificado” ainda que no “ficar”. As meninas que as usam não são inocentes, querem aquilo mesmo, isto é, alguma modalidade de contato físico, provocação, excitação erótica ou a relação sexual propriamente dita. 

Nesse sentido, Aquino (2010, p.162) chama a atenção para o fato de que “o sexo hoje está escancarado, ao vivo e em cores, na tela dos computadores da criançada. Pais e escolas perderam totalmente o controle. [...] Meninas de 10 a 15 anos postam no Orkut fotos sensuais, detalhes do corpo”. 

 Mais que uma brincadeira que começou na Inglaterra e que por lá parece ter ficado restrita ao lúdico das cercanias das escolas, no Brasil, como é habitual, a situação assumiu feições e proporções diferentes, e não poderia deixar de ser. Por aqui a libido está à flor da pele, sendo o apelo sexual muito forte neste contexto social erotizado em uma atmosfera de sensualidade quase explícita. Assim, a adolescente usuária das pulseiras, de algum modo, expõe-se a violência urbana, por não dimensionar as consequências daquilo que a levaria, a priori, a atenuar sua efervescência hormonal. 

No seu trabalho monográfico, por mim orientado, Melo (2006) chegou à conclusão de que mesmo os jovens “ficantes”, sobretudo do gênero feminino, mantêm subjacente o desejo do amor romântico. 

Na verdade, “... o sonho da maioria continua sendo um único casamento longo e feliz, que abarque a existência, produza filhos e dê à vida de cada um dos cônjuges uma riqueza de sentido que ela não teria sozinha” (MARTINS; MELLO, 2010, p.118). 

Hoje fazem passeatas em prol do resgate do namoro, o que sugere mais uma folia, uma contradição, porque, embora cansados dessa superficialidade e vazio do “fica” atual, esses contestadores não abandonam a prática do sexo casual, vulgar, escudados na teoria oportunista de que, enquanto não aparece a pessoa certa ou ideal, vão se divertindo com as que tenham acesso. 

Por que o brasileiro é tão apegado a sexo? Na opinião de Gambini (2009), o brasileiro tem nas camadas mais profundas da alma uma dor muda, advinda do sofrimento do indígena e do negro. Assim, a sua alegria e a extroversão são uma tentativa de aliviar essa dor, que somente seria possível de superá-la se fosse assumida pelo coletivo. 

Não é à toa que, no Brasil, “a cada dia, 24 pessoas suicidam-se” (BOTEGA, 2010, p.11), fato que contradiz a propagada alegria do povo brasileiro. Entendo que o compatriota, embora sofrendo, não perceba essa dor, porque basicamente a extravasa por meio do sexo, carnaval e futebol. 

Entre outros fatores para explicar esse trágico número de suicídio, estão os psicológicos relacionados às perdas afetivas (reais ou simbólicas) ou materiais, sociais e ambientais, tendo como exemplos o isolamento social e as condições de vida extremamente adversas (BERTOLOTE, 2010). 

Na compreensão de Oliveira (2009), o mundo atual é maligno e personifica a mentira, a traição, a dominação, a vingança, o poder. Logo, a alternativa mais premente é o sexo, assim, “existem, efetivamente, numerosas relações sexuais que têm muito mais função tranquilizante do que erótica. Vemos casais infelizes terem relações sexuais apenas pelo efeito calmante, e muito pouco pelo prazer erótico” (CYRULNIK, 2001, p.212). 

No campo da dança, depois do fenômeno “boquinha da garrafa”, quase todo bailado, mais que sensual, passou a ser sexual, coreografando movimentos de cópula os mais violentos (SILVA, 2010). 

As provocativas performances são perfeitas reproduções da habilidade sexual do dançarino na cama. Quase toda menina, adolescente ou mulher adulta, quando dançam essas músicas apelativas sugerem ser expert do sexo liberado. 

Essa imagem, certamente, reforça a representação da mulher brasileira como objeto sexual promíscuo. Em suma, a vulgaridade da sexualidade praticada ou insinuada é o “feijão com arroz” desse cotidiano, porém sempre deixa a esperança de um paladar mais rico e variado, assim o indivíduo fica preso à vontade insaciável de desejar mais.

Na verdade, o que nutre ou preenche, seria, digamos assim, o sexo “caviar”, ou seja, da sexualidade com desejo ou algum nível de envolvimento e sentimento pelo objeto sexual, e não apenas como um objeto vorazmente consumível e descartável. 

Em um contexto social tão sexualizado, o homem brasileiro está o tempo todo tocando no genital ou coçando a bolsa escrotal, em outras palavras, como diz o senso comum: “coçando o saco”. Parece querer se certificar de que seu instrumento de prazer ainda está ali ou, inconsciente, por essa via indireta, mostrar que tem. 

As mulheres também não ficam atrás, em uma simbologia erótica, estão sempre retocando o batom, pondo mais brilho nos lábios, lembrando que ali tem uma boca sedenta para a troca de estímulos sensuais e/ou para um potencial felátio. Diria que, para mulher, a maquilagem é gênero de primeira necessidade. Com bastante destreza fazem esses retoques sem a ajuda do espelho. 

Em vista disso, gastam muito tempo e dinheiro para se embelezarem e se transformarem em atrativos objetivos sexuais. Sem dúvida, neste mundo pós-moderno, a beleza interior não tem nenhuma importância, é uma utopia que, na maioria dos casos, nem chapa de raios-x revela, ou seja, praticamente não existe, todo investimento se destina ao corpo e a aparência. Como diz Kehl (apud SILVA, 2010), a cultura do físico se generalizou em tal proporção que até os jovens pobres de hoje ostentam corpos altivos, belos, erotizados. 

Fora as roupas que são explicitamente convidativas à alcova, mas justificadas pela condição climática, nesse jogo de sedução, com o objetivo de se tornar concorrido objeto sexual, as pessoas perderam o senso do ridículo. É verdade que se atribui ou se respalda na dita tendência da moda, essa que, no intuito de faturar alto, expõe os corpos da maneira mais vulgarmente possível. 

A peça íntima saiu da privacidade para a visibilidade da exibição pública. Assim, mostram essas peças sem nem um pudor ou constrangimento pelo ridículo. Em razão disso, o que mais se vê por toda parte são figuras em nada bizarras: mulheres gordas, maduras ou idosas, com sutiãs vagabundos e surrados à mostra e rapazes com o cós das cuecas ordinárias e encardidas expondo boa parte da região glútea. 

Agora “cofrinhos” de homens e mulheres estão expostos aos olhares e à ventilação do ar livre. Na maratona para se locarem na pista do consumo sexual, das mulheres é cobrado bem mais, um padrão que tem como incoerência ao invés de aceitar a sua diversidade, praticamente as deixa parecidas ou iguais. 

Na compreensão Badinter (apud SILVA, 2010), a sociedade de consumo sexual, em particular para a mulher, o corpo deve ser jovem, performático e excitante. No Brasil, faz-se mais plástica estética que nos EUA, entretanto a renda per capita da cidadã local é quatorze vezes menor que a das pouco sensuais, mas, literalmente, peitudas americanas. Quando o fetiche do homem brasileiro era o bumbum, a mulher tinha pouco ou nenhum controle sobre os olhares dirigidos para o seu derrière

Esse, até então, consistia na preferência nacional. A partir das turbinações siliconizadas, a mulher mostra seu poder fálico por meio dos seios fartos, tem o controle do olhar de quem visualmente é atraído a consumir essa sua parte anatômica. Caso deseje, pode instigar a continuação dessa ação ou cortar esse fluxo vampiresco depositado nessas suas elevações erógenas. 

A mulher brasileira fez deslocar o desejo comum do homem brasileiro pela parte de baixo e de trás para parte superior e frontal do seu corpo. Essa mudança de ótica movida pela imitação às americanas e desejo de independência confundiu o tupiniquim, que, agora, parece não mais ter a certeza compulsória para onde dirigir a intensidade erótica do seu olhar, até porque nesta cultura machista, não se tem por excelência admiração por nada de superior na mulher, mesmo que ainda seja no seu corpo, de certo porque isso a denota como “dona do seu próprio nariz”. 

 Assim, o brasileiro ficou meio descentrado do seu costumeiro estímulo, quase uma referência da sua própria identidade: o bumbum, bem como para os americanos são os “airbargs das suas nativas. Enfim, neste país, “... a boca, o peito ou os peitos e, em particular, a bunda, às vezes, rivalizam com o pênis e a vagina na construção da ideologia erótica” (PARKER, p.175). 

A sorte da mulher é que, devido a sua anatomia sinuosa, uma gama de recursos naturais a favorece na estimulação e encantamento da sua sexualidade. Por mais que exponha suas partes pudendas ou externalize sua sensualidade, paira sempre o segredo latente em virtude da sua concavidade nata, por isso o strip-tease da mulher sugere ser mais intrigante, têm caras, bocas e algo mais que ela, por mais que queira, não consegue revelar, enquanto o strip-tease do homem não passa de um ritual mecânico, de uma monótona e cansativa tentativa de excitar. 

Talvez isso tenha a intenção de nivelar os gêneros, de dar direito de exibição ao homem na condição de objeto para fins sexuais, mas, seja no strip-tease ou na passarela de moda, a figura masculina sempre parece descabida de sex-appeal

Por conta da sua natureza externa e contundente, qualquer insinuação voltada para sexualidade masculina deixa implícito o óbvio, e isso se torna, na maioria das vezes, uma coisa agressiva. 

As mulheres parecem extasiadas pelo objeto masculino da encenação sexual, quando, na realidade, apenas estão sendo agraciadas pela brisa dessa liberdade de também poder colocar o homem no lugar de objeto sexual de exposição e consumo. Por mais que tenha se tornado masculinamente visuais, entretanto, é no toque, na voz e em outros aspectos sutis, subjetivos e eletivos, que a mulher evoca a excitação do seu desejo sexual. 

A esse respeito, ou seja, em relação à mulher e sua feminilidade, como salienta Baudrillard (2001, p.16-7), “seja autêntica ou superficial, a feminilidade é fundamentalmente a mesma coisa. [...] Se a feminilidade é princípio de incerteza, aí onde ela própria é incerta, a incerteza será maior: uma representação da feminilidade”. 

Finalmente, a sedução maior da mulher não está no corpo, mas na alma ou na sua capacidade infinita de se insinuar, sugerir, provocar e nunca, mesmo que ardentemente seja esse seu desejo, conseguir totalmente se desnudar. Quando mais se mostra, na sua proporção inversa, esconde-se. Eis a beleza e o encanto do seu mistério.

Referências

AQUINO, R. De que adianta proibir as pulseiras do sexo? Seção: Nossa Antena. Revista ÉPOCA, São Paulo, n. 6221, 19 abr. 2010.
BAUDRILLARD, J. Da sedução. 4. ed. Campinas: Papirus, 2001.
BOTEGA, N. Comportamento suicida em números. debates PSIQUIATRIA HOJE, ano 2. nº 1. jan/fev de 2010.
BERTOLOTE, J. M. O suicídio no mundo. debates PSIQUIATRIA HOJE, ano 2. nº 1. jan/fev de 2010.
CARVALHO, A. Felizes no sexo. Revista ISTOÉ, São Paulo, n. 1909, 24 mai. 2006.
CYRULNIK, B. Existiriam bases biológicas para o amor? Os hormônios da fantasia. In: GUITTA, P-P. A ciência: deus ou diabo? São Paulo: Ed. UNESP, 2001.
GAMBINI, R. Para conhecer a dor da alma. debates PSIQUIATRIA HOJE, ano 1. nº 3. mai/jun de 2009.
MELO, A. F. Amor na contemporaneidade: as transformações na vida amorosa dos jovens universitários sob o olhar da psicanálise. Monografia (Formação em Psicologia) - Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2006. (mimeo.).
MARTINS, I.; K, MELLO. Como salvar seu casamento. Seção: Sociedade Família. Revista ÉPOCA, São Paulo, n. 6221, 19 abr. 2010.
OLIVEIRA, M. de. In: OBRIST, R. U. Entrevistas: vol. 1. Rio de Janeiro: Cobogó; Belo Horizonte: Inhotim, 2009.
PARKER, R. G. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil contemporâneo. 2. ed. São Paulo: Best Seller, 1991.
SILVA, V. G. Nuances dos psicológicos e algumas inquietações pós-modernas. João Pessoa: Ideia, 2010.

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