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terça-feira, maio 01, 2012

A difícil formação dos bons hábitos

11/04/2012  | Isabel Clemente 



Educar é chato, você sabe. A gente fala, repete, volta a falar a mesmíssima coisa vinte vezes num dia só. Haja. E ainda saímos da história com fama de chatos. Chatos! Nós? 

Pais são uns incompreendidos. Mas o que nos redime é o lado nobre dessa missão de interesse público: criar pessoas ajustadas, cidadãos de bem, seres felizes. Além do quê, volta e meia dá um orgulho danado. 

A visita te olha com aquela cara de espanto porque a pequena de 2 anos pediu licença para sair da mesa e obrigada depois. Licença!? Ora, ora…E você bota uma cara de simplicidade para esconder o show pirotécnico no seu coração. Eita baixinha…resolveu mostrar rudimentos de etiqueta social.

Por isso tento ser incansável. Tenho fé que, num futuro não muito distante, nós quatro permaneceremos à mesa comendo, civilizadamente, sem que eu e meu marido tenhamos que nos revezar para limpar cocô nem arrastar ninguém de volta para a cadeira. Estaremos realmente interessados em trocar impressões sobre a vida e gastando tempo para se conhecer melhor. 

Porque se tem um hábito que anda me dando arrepios é o olhar das pessoas grudado num celular, num ipad, num Ipod, ou num gadget qualquer, diante de outro ser humano hipnotizado pela tela brilhante. A cena está se tornando um déjà-vu da vida moderna. 

Famílias sentadas à mesa em restaurantes, silenciosamente entretidas com seus objetos de uso pessoal eletrônicos. Não falam. Não se comunicam entre si. Às vezes, sequer se olham. Não piscam! Desperdiçam tempo de se conhecer. Sabe como isso começa? Lá atrás, nas tentativas de manter crianças pequenas comportadas num restaurante.

É um desafio, eu sei. Dependendo da energia contida, elas querem andar, falar, brincar, desenhar ou simplesmente sair do lugar. Aff. E não adianta nem falar que criança muito pequena não combina com restaurante, melhor não comer fora, ué, esqueça. 

Essa ideia de jerico fecharia vários estabelecimentos, geraria desemprego e uma onda de desdobramentos econômicos e psicológicos, porque todo mundo gosta de passear. Pais saem com crianças pequenas, desde que o mundo é uma cidade grande com ofertas de entretenimento, inclusive para restaurantes. Aí tem que encarar.

Mas voltemos ao início da minha tese. O que está por trás do vício em joguinhos eletrônicos? Em Ipad? Em Ipod? Em celular? O que fazer para meu filho não chegar lá dessa forma cega? Qual o limite do saudável? Quando elas poderão ser apresentadas a esses joguinhos? São mesmo inevitáveis? 

Eu me pergunto isso. É da natureza da criança certa inquietude. E nós queremos paz. Inevitável recorrer a brincadeiras, brinquedos. 

Nós costumamos inventar histórias em pedaços. Um começa e o seguinte completa. Damos várias voltas na mesa até a história ficar sem pé nem cabeça, porque, toda vez que volta para a pequena de dois anos, ela recomeça tudo dizendo “ela uma vez, há muito, muiiiiito tempo…”, sob protesto da outra. “Ah nãooooo….”. Eu também lanço mão de papéis e giz de cera (que bela invenção). 

Desenhos podem ser muito relaxantes para toda a família, além de abrir uma brecha para eu e meu marido conversarmos. Porque tem hora que precisamos pedir chance para falar. Dá a vez?

Mas há algo de inofensivo num desenho, porque desenho a criança mostra. Ela pede opinião enquanto cria. Há um mínimo de interação. Não há a ansiedade de “passar para a próxima etapa”. Ela pode olhar ao redor e se inspirar em algo presente para criar. A gente sempre dá pitacos, pede para ver, diz “huuummmm”. 

Há algo a partilhar. Jogos eletrônicos, para mim, aprofundam o isolamento do adolescente que já tende a achar pai e mãe chatos. Posso estar implicando demais, gente, mas peguei horror. Prontofalei.

As pessoas se acostumam a silenciar os filhos, desde cedo, porque barulho incomoda, bagunça incomoda, e incomoda também os outros num lugar público. Minha utopia é canalizar essa energia para uma troca saudável, chamá-las para a brincadeira e não prendê-las numa camisa-de-força eletrônica. 

Quando a gente deixa a criança falar, revelações surpreendentes surgem. Você fica sabendo de coisas que aconteceram na escola e das quais talvez nunca soubesse. Nem tudo os filhos estão prontos para nos contar se não dermos várias chances seguidas porque às vezes eles têm vergonha até de repetir o que o outro fez. Me chamou de feio, disse que sou burro ou gordo. 

Não é fácil para uma criança se apropriar do discurso que lhe ofendeu, mesmo que seja apenas para passar adiante a história. Repetir é um sofrimento e é preciso estar muito relaxado e confiante da atenção dos pais para deixar a alma vazar. Mas o joguinho eletrônico faz a gente esquecer essas coisas…pra quê falar?

Lá em casa, a batalha é diária. A gente chama para perto, por mais trabalho que isso dê. Senta aqui, está na hora do café da manhã. Já me irritei muito com o desassossego delas e até me arrependi de ter saído para restaurantes. Mas a coisa evolui aos poucos porque, vocês sabem, educar dá trabalho, é repetitivo e chato. 

Hoje, apesar de a menorzinha tomar sua vitamina no copo antes de todo mundo (mas não tão antes assim), conseguimos arrastá-las para a mesa. A pequena reclama. “Quelo café e pão!”, com a xícara na mão. Não come nada, mas a intenção lhe basta. 

A filha mais velha já entendeu que é o momento família e que há um propósito em estarmos juntos e disponíveis uns para os outros. Percebo que, aos poucos, nossa insistência surte efeito. Nem sempre a contento, nem sempre como queremos, mas sinto uma evolução.

Eu não quero dispensá-las do convívio enquanto são barulhentas e desorganizadas porque poderá ser tarde demais tentar recuperá-las de volta depois. Eu quero que elas gostem de uma boa conversa. 

Faz parte do processo de educação ensiná-las também a participar, a ouvir e a falar. Como a natureza humana é capaz de tudo, inclusive de milagres, e nós, pais, não somos os únicos elementos determinando o caráter dessas pessoas que geramos, pode ser também que não haja lógica nenhuma no que estou falando, e que, de uma hora para outra, a criança falante e feliz se torne um adolescente fechado, que sequer dá bom dia aos pais. 

E que a criança criada na base do Ipad esteja genuinamente interessada nas reuniões com primos, por exemplo. Tudo é possível, como eu já disse aqui em outro post. Mas, parodiando a música dos mal encarados frequentadores de um pub do filme Enrolados, eu tenho siiim…um sonho siiimmm… que minhas filhas digam sempre algo pra mim!!!

P.S: e se você não viu Enrolados, a ótima versão moderna de Rapunzel, alugue. Divertidíssimo.
Isabel Clemente é editora de ÉPOCA no Rio de Janeiro.

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