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terça-feira, janeiro 15, 2013

Escola especial não é o ideal, mas às vezes é necessária, diz advogada

IARA BIDERMAN
DE SÃO PAULO 

Fernanda Raquel Santana, 19, gosta de conversar sobre videogames, bandas de rock pesado e aviação comercial.

Rafael Camargo Ferraz Oliveira, 10, também é vidrado em aviões e adora mostrar sua coleção, mas conversar sobre ela está fora de questão. 

A jovem e o menino estão nos dois extremos do espectro autista. Fernanda é asperger, um tipo de autismo caracterizado pela preservação das habilidades cognitivas e maior capacidade verbal, enquanto Rafael é o chamado autista "clássico", com comprometimento mais grave. 

 
"A maior dificuldade dele é com a linguagem", conta a mãe, a advogada Alessandra Camargo Ferraz, 42. Mas o tratamento intensivo -33 horas semanais de psicoterapia, fonoaudiólogo e aulas especiais- ajuda Rafael a se comunicar, cumprir rotinas, ir à escola (ele foi alfabetizado). E, sim, ele faz contato. 

"Dizem que o autista vive num mundo à parte. Não: o problema é que ele vive no nosso mundo, mas precisa aprender como", diz a mãe. 


Marlene Bergamo/ Folhapress
Fernanda Raquel Santana, 20, com sua mãe, Rejane Nascimento, em uma livraria
Fernanda Raquel Santana, 19, com sua mãe, Rejane Nascimento.

O aprendizado implica acesso a tratamento e escola para essas pessoas, recém-saídas de um limbo jurídico ao terem seus direitos equiparados aos de brasileiros com deficiências -antes, legalmente, autistas não eram considerados deficientes. 

"A nova lei cria diretrizes para um plano nacional de proteção. Vamos ver como vai ser na prática. É preciso tirar essa população do limbo social: muitos ficam presos em casa e até as mães são excluídas socialmente, porque têm que cuidar dos filhos", diz a advogada Renata Tibyriça. 

A mãe de Fernanda, Regiane Nascimento, 52, largou trabalho e faculdade para ajudar a filha, que passou por diversas escolas, apesar de não ter deficiência cognitiva. 

NAMORO E BULLYING
 
Além da alta funcionalidade, Fernanda tem uma habilidade acima da média para o desenho. Dragões, figuras inspiradas no antigo Egito e personagens de animações são seus temas prediletos. 

Ela já ilustrou um livro didático e sonha em fazer seu desenho animado. Já tem o roteiro pronto: a história, passada na cidade imaginária de Monstrópolis, fala de namoro e de bullying na escola. 

Na Defensoria Pública do Estado de São Paulo, onde Tibyriça trabalha, são atendidos cerca de 30 casos por mês relacionados a demandas de familiares de autistas: escola, tratamentos, transporte especial, além de denúncias de discriminação e maus-tratos em instituições. 


Gabo Morales/Folhapress
Rafael, 10, e sua irmã, Carolina Camargo Ferraz de Oliveira, em sua casa, na zona oeste de São Paulo
Rafael, 10, e sua irmã, Carolina Camargo Ferraz de Oliveira, em sua casa, na zona oeste de São Paulo  

A inclusão escolar não tem funcionado como deveria. Temos que abrir caminho para a qualificação dos profissionais e das instituições e entender que nem todo autista pode ser colocado em sala regular. Escola especial não é o ideal, mas é o real para alguns casos", diz Tibyriça. 

Em São Paulo, uma sentença de ação civil pública obriga o Estado a ter centros especiais para autistas e, na ausência destes, custear tratamento particular. 

A inclusão do autista gera um conflito muito rico, segundo a psicanalista Fernanda De Franceschi, que defendeu uma tese sobre o tema. 

"Apesar de o autista quase não se expressar, sua presença denuncia o que está debaixo do tapete, porque perturba a ordem preestabelecida e mostra que a escola precisa se rever", diz Franceschi. 

A lei que determina a inclusão é um ganho por forçar as escolas a se capacitarem, mas a obrigatoriedade é só para a rede pública. 

"A maioria das escolas privadas nega matrícula, principalmente as mais bem avaliadas. Mas, como a escola pública está fazendo isso, a tendência é esse cenário mudar. Os pais estão se conscientizando e pega mal para uma escola 'AA' ser denunciada por negar um aluno autista", diz a psicanalista.

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