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quinta-feira, julho 11, 2013

1984 o ano que não terminou - Carlos Helí de Almeida

Enquanto o país discute protestos, filme ambientado no calor das Diretas Já chama a atenção de festivais antes mesmo de ficar pronto

Caio é um adolescente de Salvador, de índole libertária, cansado de se ver como marionete de políticos brasileiros. Entusiasmado com o clamor que vem das ruas, ele expressa sua indignação com os rumos da democracia na prova do colégio, onde participa ativamente da criação de um diretório acadêmico: "Estamos saindo de um período de exceção para uma nova era, a da Demencracia". 

O rapaz poderia estar entre os milhares de jovens que engrossaram as passeatas que pipocaram pelo país no mês passado, mas é o personagem central da drama. "Depois da chuva", ambientado em 1984, no calor da Diretas Já, movimento que pedia a volta das eleições diretas para presidente da República. 

Dirigido pelos baianos Cláudio Marques e Marília Hugles, o filme foi descoberto por olheiros de festivais de cinema estrangeiros e ganhou projeções especiais para agentes do mercado no Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires e no Festival de Cannes, sob a legenda work in progress.

Iniciado há cinco anos, a partir da ordenação de memórias afetivas de Marques, "Depois da chuva" ganha um novo peso ao ficar pronto no momento em que o Brasil discute novamente sua capacidade de mobilização política. A coincidência só fez aumentar a curiosidade internacional pelo longa-metragem de baixo orçamento, que traça paralelos com a atual ebulição popular.

Agora, seus realizadores esperam por um sinal dos principais festivais de cinema do mundo, como Veneza, Toronto, Roterdã e Sundance, que já haviam  demonstrado interesse em tê-lo na programação e que, após protestos de junho, desejam entender o que vem acontecendo no Brasil. O filme está previsto para chegar aos cinemas daqui em 2014, nos 50 anos do Golpe Militar e nos 30 anos das Diretas Já, com distribuição da Espaço Filmes, de Adhemar de Oliveira.

- Ficamos bastante surpresos com a coincidência, porque "Depois da chuva" é um filme que dialoga muito com o nosso presente, pois trata de questões discutidas em 1984, quando se acreditava na refundação do país, depois de 20 anos de Ditadura Militar - observa Marques, de 42 anos, que, junto com Marília, 35, foi listado pela "Variety", a bíblia do mercado audiovisual  americano, em sua edição de Cannes, como talento latino-americano em que a Europa deveria prestar atenção em 2013.

- É imprescindível que lancemos um olhar sobre esse movimento transformador e suas consequências.


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