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quinta-feira, outubro 31, 2013

Questão de fidelidade - Nei Lopes

   Revista O Globo

Na década de 1980, nas discussões do projeto da Constituição hoje em vigor, a expressão "fidelidade partidária" ganhou as ruas. É que um dos pontos polêmicos do texto era, no Capítulo V "Dos partidos políticos", a obrigação de o político eleito permanecer vinculado a seu partido durante todo o mandato, sob pena de perdê-lo.

Naquele momento, meu envolvimento no ofício das leis já tinha ficado lá atrás; desde 1972, quando gravei meu primeiro samba, na voz da grande Alcione, que também começava ali sua carreira no disco. E a juridicidade que me cabia, então, era ficar de olho nos contratos com as editoras e na gestão dos meus direitos autorais - que mais tarde se estenderam para os livros. 

Acontece que o Direito é um vício. E quem um dia prova um pouquinho, mesmo que não queira, está sempre pensando nele, bem ou mal.  E até mesmo usando-o sem sentir. Foi assim que quando do disco " O partido muito alto" que gravamos, eu e o parceiro Wilson Moreira em 1985, veio-nos, através do saudoso maestro Rogério Rossini, a ideia de brincar com o que o projeto constitucional discutia: a fidelidade partidária. E a tentação do trocadilho nos instigava.

Como se sabe, o partido-alto é aquele tipo de samba em que a ideia básica da letra é passada no refrão e o desenvolvimento dela vai nas estrofes do solo, geralmente improvisadas. Então, inventamos a historinha: "Minha tia avó Rosária/ partideira centenária/ perguntou para mim: / Meu neto, o que é fidelidade partidária?"

Esta é a ideia central. E, como a respeitável velhinha não poderia ficar sem resposta, ela veio na enumeração gaiata de algumas ações, como "por verde-amarelo na indumentária"; "rejeitar propina na conta bancária". Sempre com o coro ratificando: "Isto é fidelidade partidária!" Como até hoje é entoado nas rodas.

Agora, o país discute não só a fidelidade aos partidos como até mesmo a utilidade deles; que são úteis, sim, da mesma forma que, por exemplo, os times de futebol, as escolas de samba, etc., pois consagram o princípio da liberdade de escolha e de associação.

Para mim, o que não vale é ser fiel por interesse, para ganhar "milhas" e outras vantagens. Fidelidade, mesmo, é "não fazer acordo com a parte contrária", como a veneranda tia-avó Rosária. Que jamais abriu mão do partido-alto em proveito desse pop imperialista que anda por aí fantasiado de globalização.

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