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domingo, janeiro 05, 2014

Pesquisas recentes vêm derrubando vários mitos sobre como as novas gerações se sentem e se comportam no ambiente de trabalho

Caem os mitos sobre a relação dos jovens com o trabalho

 
Natalie Behring/Getty Images
Jovens em busca de emprego
Jovens em busca de emprego: ao contrário do que se acredita, 
eles são contratados mais rapidamente que os adultos

São Paulo - "Eu sou preguiçoso (...). Até o livro de história mais chato me dá maior sensação de liberdade do que estar aprisionado em um escritório. Quero meu tempo à minha disposição. Acho que sou mimado, como diz o meu tio. Minha geração é notória por querer fazer tudo do jeito mais fácil."

Esse trecho foi escrito pelo estudante americano Richard Lorber, de 20 anos,e publicado na revista Life. Richard descreve a si mesmo, mas as características parecem condizentes com o estereótipo de qualquer jovem de hoje: individualista, questionador, preguiçoso.

Só que ele tinha 20 anos em 1968, quando a matéria foi publicada. "As pessoas esqueceram que algumas características apontadas como exclusivas da nova geração são, na verdade, comuns entre os jovens de qualquer época", diz Alexandre Santille, co-presidente da Affero Lab, consultoria de educação corporativa. 

 "Isso acaba reforçando estereótipos que prejudicam o jovem que está entrando no mercado de trabalho", afirma. De fato, os números mostram que muitos traços atribuídos aos profissionais em início de carreira não conferem com a realidade. 

Foi o que concluiu o estudo "A rotatividade dos jovens no mercado de trabalho formal brasileiro", do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em outubro.
"Diferentemente do que se imaginava, é mais fácil para o jovem arrumar emprego: nove em cada dez que procuram trabalho encontram", diz o técnico de  planejamento do Ipea Carlos Henrique Corseuil, um dos coordenadores da pesquisa.

Na realidade, o que explica o maior desemprego nessa faixa etária — 14,1%, ante uma média de 5,2% entre o resto da população — é que o jovem sai do emprego mais rápido. "Em um ano, sete em cada dez jovens saem do emprego. Entre os mais velhos a taxa é de 41,3%. Isso ocorre porque o jovem costuma trabalhar em áreas de maior rotatividade, como comércio e serviços", esclarece Carlos Henrique. 

A razão do desligamento dos jovens também é diferente da percepção geral. A iniciativa do fim do contrato parte, em quase metade dos casos, dos empregadores. Só 28% dos profissionais em início de carreira pedem demissão. "É mentira, portanto, que a alta rotatividade nos empregos seja culpa só da nova geração, que, insatisfeita e impaciente, pula de empresa em empresa", diz o técnico do Ipea.

Outra pesquisa, publicada em novembro pela consultoria de recrutamento Talenses, mostrou que os profissionais nascidos de 1979 a 1990 — a geração Y — são os que mais valorizam a estabilidade na hora de procurar um emprego. Outro estudo, da Affero Lab, mostra que apenas 35% dos gestores acreditam que o jovem queira construir uma carreira sólida e de forma gradual. Na realidade, isso é o que 56% da turma mais nova deseja. "Há uma disparidade enorme entre o que eles querem e o que os mais velhos acham que eles querem", diz Alexandre Santille.
Expectativas e frustrações

A falta de entendimento sobre os reais anseios das gerações Y e Z (nascidos a partir de 1991) pode estar por trás da grande rotatividade dos trabalhadores jovens. "As empresas precisam atrair os jovens porque eles são a mão de obra do futuro. Para conseguir essa atenção, muitas se vendem como algo que não são", diz Eline Kullock, presidente do grupo Foco, de consultoria em EH.

"A geração Y foi pintada como aquela que vai salvar a pátria. Toda empresa quer descobrir o próximo Mark Zuckerberg (criador do Facebook) e, quando percebe que isso não vai acontecer, acaba decepcionada", afirma Valéria Brandini, do instituto Br Insights. 
Corrigir essas percepções equivocadas é crucial para as empresas que querem atrair, reter e extrair dos jovens os melhores resultados. A consultoria PricewaterhouseCoopers estima que, em 2016, 80% da força de trabalho pertencerá às gerações nascidas a partir de 1980. Por isso mesmo, 77% dos presidentes planejam revisar suas estratégias para reter esses talentos. 
 
"Mas não adianta colocar uma mesa de sinuca, espalhar uns pufes e achar que, com isso, vai ser uma nova empresa", diz Eline Kullock, do grupo Foco. No Brasil, já existem bons exemplos para ser seguidos. A Embraer, vencedora da edição 2013 do Guia das Melhores Empresas para Você Começar a Carreira, de VOCÊ S/A, mostrou que, para reter os jovens, não é preciso transformar a empresa num parque de diversões.

Na companhia, onde o turnover dessa faixa é de apenas 4,87% — ante uma média de 30,6% nas demais empresas do guia —, o grande destaque é o investimento em qualificação e desenvolvimento, como projetos de extensão e especialização. "No ano passado, foram 9 milhões de reais investidos em treinamento", explica Danilca Galdini, sócia-diretora da Nextview, empresa corresponsável pela pesquisa.

De fato, na pesquisa feita para o Guia, aprender cada vez mais e ter oportunidades de se desenvolver são os principais fatores apontados pelos jovens para permanecer em uma organização. Na Man Latin America, a qualidade de vida é um dos pontos mais elogiados pelos jovens funcionários entrevistados pelo Guia.

Quando isso não acontece, o jovem se decepciona ao descobrir que o universo que lhe prometeram não existe, e seu desempenho pode diminuir. Por sua vez, a companhia que o contratou prometendo um modelo inovador, mas na realidade o avalia do modo convencional, também se frustra com os resultados entregues e acaba por demiti-lo.

Desde 2009, a montadora aboliu as máquinas de ponto: quem precisa sair mais cedo, chegar mais tarde ou faltar ao trabalho negocia direto com o gestor. Parece simples, mas a prática toca num ponto-chave para os jovens profissionais: 75% dos membros da geração Z se dizem atraídos por empresas que oferecem horário flexível, ante 45% da geração X, segundo a pesquisa da Talenses. Mais uma prova da importância de entender como cada geração pensa na hora de definir as políticas eficientes de atração e retenção.
Fonte: Boletim Mercado de Trabalho nº 55, do  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)

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