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sábado, fevereiro 15, 2014

A história da Vó Domingas

Diariamente nos são apresentadas grandes oportunidades de interagir com as pessoas, de conhecermos um pouco mais do outro, de trocarmos experiências positivas, mas muitas vezes nós nos fechamos a elas.

Essa história aconteceu comigo há alguns anos. Era um dia de sol escaldante e estava indo ao banco pagar algumas contas. Quando entrei no banco, enquanto estava na fila, percebi do lado de fora uma senhora com cerca de quase setenta anos sentada no chão, encostada a um poste, de cabeça baixa e com um grande crachá no peito.

A cena me intrigava, ao perceber que tantas e tantas pessoas passavam por ela e nenhuma delas, sequer olhava pra ela, quanto mais perguntar se ela precisava de algo.

Com um grande incômodo em meu coração, eu saí da fila e me dirigi a ela, perguntei se ela estava com fome, se gostaria de comer algo. Ela com um sorriso, levantando a cabeça, me disse que sim. Comprei então na padaria mais próxima um suco de laranja e um lanche. Ela me agradeceu, sentei no chão com ela e percebi seu crachá com a palavra 'Epilepsia". 

Chamava-se Domingas. Numa conversa, ela me explicava que o colocava para se caso tivesse alguma crise na rua, soubessem o que era, para socorrê-la corretamente. Foi então que ela me disse que sentada em frente ao banco, esperava conseguir até o fim do dia o dinheiro para comprar seus remédios.

Tirou de uma pastinha receitas de remédios, me disse também que estava com câncer. Foi então que ela me disse com um olhar que não esqueço - cheio de esperança - "Deus há de me ajudar e eu vou conseguir os meus remédios, minha filha..."

Comovida, eu lhe pedi a receita e pedi que esperasse. Fui à farmácia. A conta não era pequena, mas ainda assim, fiz questão de atender ao chamado do coração e comprá-los todos.

Ao voltar pela rua com o saco de remédios nas mãos, ela ao me avistar, começou a chorar e levantar as mãos para o céu.... Me deu um abraço apertado e emocionado e perguntou-me como poderia agradecer. E eu lhe respondi que não precisava agradecer, pois a partir de hoje ela era minha avó...

Conheci sua história de luta, catando latinhas, pedindo para conseguir comprar os remédios e pagar um aluguel numa casinha simples em Itaquera - bairro da periferia  da zona leste de São Paulo. Sua casa tão simples, estava sempre limpa... E ela prezava por isso...

Morava com um senhor, seu companheiro também doente e com seu sobrinho deficiente, mas sem jamais perder a fé e a esperança de melhorar a cada dia. Tive a oportunidade de encontrá-la inúmeras vezes, levar-lhe alimentos, roupas, mas o mais importante: Amor.
Era o que ela mais precisava. A acompanhei em sessões de quimioterapia, conversávamos por vezes... E ela me chamava de 'minha neta'....

Hoje ela já não se encontra mais ao meu lado - ao menos fisicamente - Ela foi uma dessas pessoas maravilhosas que encontramos pela vida.... a quem nos deixamos prestar atenção e aprender.... Ela foi uma dessas pessoas que têm úma fé maior do que muita gente que diz saber sobre a vida. Ela era cheia de vida, mesmo 'portando' uma doença. Ela era maior do que a doença. Ela era luz! E era isso que seu olhar transmitia.. . Era isso que seu sorriso transmitia.

Quando nos permitimos sermos contagiados pelo outro, comungamos com ele, nos tornamos família. Não somos mais estranhos um ao outro. Nos tornamos avós, netos, irmãos, pais e filhos.... famílias de 'náo-sangue' e sim, de coração... coisas da alma!

Talvez você também possa se permitir entrar no mundo de alguém que pra você seja um estranho. Talvez você possa se permitir conhecer a realidade das pessoas a sua volta. Visitar um hospital, um asilo, uma comunidade carente, prestar atenção nos encontros diários...

Talvez você possa fazer mais do que suas preces cotidianas,
Talvez você possa ser a fé em ação... talvez você possa agir com seu coração...
Talvez você possa quebrar os preconceitos e os dogmas, que lhe afastam das pessoas..
Talvez você possa dizer "Bom dia", Talvez você possa dizer "Posso lhe ser útil?" a alguém que não convive dentro da sua casa.

Talvez você possa prestar atenção à dor das pessoas e ser solidário.
Talvez você possa perceber que sua dor não é tão grande como a das pessoas a quem você pode servir com o melhor de você. Talvez você entenda o quanto sua palavra é importante.

O quanto o seu gesto pode ser definitivo na vida de alguém.
O quanto seu sorriso vale por vezes - mais do que mil palavras....

Talvez você possa abençoar as pessoas, ao invés de continuar lamentando e julgando-as.
Talvez você possa aquecer corações com frio
Talvez você possa fazer diferença ainda hoje
Estender suas ações a muito mais gente...
E motivar outras mais pela sua força de vontade...

Ou talvez essas palavras sejam apenas palavras pra você...

Mas antes que elas se percam em sua memória, eu lhe convido a refletir profundamente sobre elas e se abrir às pessoas e servi-las. Abra as fronteiras de seu mundo limitado e olhe ao seu redor.

O que você poderia fazer hoje mesmo? Quais marcas você tem deixado nas pessoas?

Não se esqueça das coisas que o dinheiro não paga....
Das coisas que o tempo não leva...
Das coisas que são cravadas no fundo da alma - para sempre!

(Fernanda Lopes de Luzia)

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