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domingo, outubro 05, 2014

As selfies, a alma e os aborigenes - Laura Muller

Os aborígenes acreditavam que tirar a foto de alguém roubava-lhe a alma. Em tempos de "selfies" para todo lado, esse mito primitivo talvez seja um bom ponto de partida para pensarmos sobre nossa relação atual com a crescente exposição de imagens pessoais via internet, em contraponto à necessidade de privacidade que todo ser humano, lá no fundo, tem.

 No que isso importa para o assunto merecer uma reflexão em um espaço como este aqui, dedicado a temas relacionados à sexualidade? Importa quando nos vemos atingindo limites extremos de exposição do corpo e da intimidade sexual. Ou seja, quando nos vemos às voltas com a banalização.

Aqui vale citar um conceito: banalizar é tornar algo vulgar, comum. Um exemplo disso em relação ao sexo são as "selfies" postadas com a hashtag "aftersex". Enxurradas de travesseiros e lençóis revirados, pés, pernas e outras partes do corpo para todo lado, e um necessário sorriso de satisfação estampado na cara de sono. Sim, houve sexo. É o que a foto quer mostrar.

Seus personagens centrais são homens, mulheres e até mesmo bichos. Esses últimos, na maioria das vezes, são mostrados em cenas que remetem a humor e não necessariamente à prática de zoofilia, que é sexo com animais. Parece que, nas imagens das redes sociais, pelo menos esse limite ainda não foi ultrapassado. Só não sei bem até quando.

Claro que, em linhas gerais, cada pessoa adulta tem o direito de postar o que quiser sobre si na internet ou onde mais for. Mas até onde estamos indo? E no que pode dar toda essa exposição? Mais do que isso: que necessidade é essa de mostrar ao mundo as nossas cenas tão íntimas? Seria para dizer "Olha só, eu transo" ou algo similar a isso? E a pessoa que está no lado? Será que compactua de fato com essa prática? Ou aquele flash lhe foi roubado como a alma do aborigene fotografado?

É importante também entendermos melhor sobre as pessoas presentes em cada foto. Quando a exposição é como a de uma cena de filme, de atores ou modelos vivendo personagens fictícios em ação sexual, isso é uma coisa. Outra bem diferente é gente real e a intimidade de sua vida a dois.

Atores estão no campo da ficção e suas imagens em cena pertencem a isso, por mais que os corpos ali presentes sejam de gente real. Na ficção, a capa da arte os protege. Na vida como ela é, não há onde se esconder. Fica tudo nu e cru. Será que os amigos próximos e os familiares, ou ainda o vizinho, o amigo do amigo, o Zé da padaria e sei lá mais quem deveriam mesmo ter suas mãos o álbum dos momentos particulares de cada um de nós? E nós, igualmente, deveríamos ter os deles? 

Particular: pertencente ou relativo somente a certas pessoas ou coisas; que não é público; que não se destina ao uso público; especial, excepcional; separado; confidencial, íntimo, reservado. Coisas que não se pode confiar a qualquer pessoa; segredos.

Extraí as definições acima do dicionário. Talvez a gente precise mergulhar um pouco mais no significado das palavras para lançar um olhar mais claro sobre as fotos da vida particular. Assim, quem sabe a gente perceba melhor o quanto nossa intimidade cabe mais no espaço de "coisas que não se pode confiar a qualquer pessoa", o campo dos nossos segredos. Vale dar uma olhada nisso tudo antes de se render ao que todo mundo, ou grande parte, anda fazendo. Nessa jornada, é bom lembrar que as modas de tempos em tempos mudam, passam, se reciclam. Mas a sua vida, de alma roubada ou de alma reservada continuará sempre com você.

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